Última Moda
Última Moda
 

EVERYBODY WANTS TO BE BRAZILIAN
(NOSSO TEMPERO DE NOVO)

Abra o seu coração (ou não) para Mia Doi Todd. Ela quer um tantinho de Carmen, um nadinha de Nara, um bocado de Bebel. E quem fez o vídeo foi o Michel Gondry _ para quem não conhece, o diretor dos clipes mais legais da Björk e de "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças", entre muitos outros chuchuzinhos.

O clipe começa como quem pensa num comercial de impressora, mas no final faz brotar simpatia pela psicodelia analógica da coisa. Pessoas descoordenadas e suas conexões de cores. Notem, no início, o pôster da cantora latina Gloria Trevi, a popstar que levou a novela mexicana a sério, nas veias e até na barriga.

Mia, com suas vontades de Brasil (o mundo está tão de olho, está de boca, querendo encostar em tudo o que tem por aqui), tem uma voz com gosto, vale provar. E, Mia, seus cabelos... Vocês já viram a capa do disco "Gea", que ela lançou em 2008? Tropicália feelings. Vai saber, deixe cantar.

 

Escrito por Vivian às 20h20

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INBRANDS DEVE COMPRAR LE LIS BLANC

Estão bastante avançadas as conversas do grupo Inbrands com o grupo Artesia para a compra da marca Le Lis Blanc, que atualmente pertence a este último. A estilista Traude Guida, fundadora e atual diretora de criação da grife, iria junto para a Inbrands, que já é dona das marcas Ellus, 2nd Floor,  Alexandre Herchcovitch e Isabela Capeto.

 

Escrito por Alcino Leite Neto às 14h53

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O BAILE DO "IT" CONTRA O IMPOSTOR (OU UMA PARTITURA DE ALGEMAS)

Esteve na cidade do Rio de Janeiro um moço simpático e baixote, de grande rosto alemão, chamado Scott Schuman, trazendo pelo braço uma linda moça e sua mulher, francesa e tendo por nome as palavras Garance Doré. Houve grande expectativa em torno do casal, que fotografa para seus muito visitados blogs aquilo que consideram o auge da elegância.

Em areias dos braços abertos de nosso Redentor, escolheram uns poucos nomes, dignos de ilustrar os tais blogs a contento e segundo os interesses dos editores. Via-se em torno deles um desfile camuflado, mulheres, garotas, homens e rapazotes sedentos de aprovação, talvez sofrendo de secreta falta de amor pelo pulso, gente que ciscava feito pintos novos em busca de um olhar de reconhecimento da mamãe-galinha. O olhar não vinha, e então faziam como a raposa da fábula, aquela que não alcançava os cachos de uvas maduras de belíssima parreira: “ estão verdes”.

O novo Moisés, aquele escolhido com destaque para abrir o mar que ainda separa o Brasil das autoeleitas elites do Grande Reino da Moda, foi Joana, uma bela morena carioca. Herdeira de uma loja muito chique, recheada de coisas, muitas delas exportadas pelas nomeadas Grandes Marcas D’Ouro do Grande Reino da Moda.

Joana é mesmo bonita de se ver. Toda dourada do ouro que não se compra, moça daquelas que ganham música. O Rio, pelas barbas do Cristo, está cheio de mulheres Joana, é cidade-colírio. Não apenas bonitas, mas linda ou abudantemente cobertas de cores e luminiscências, uma beleza mesmo. Dizem que o encontro de Scott, Garance e Joana foi casual, outros discordam, mas isso do acaso é tão complicado, ainda não tenho palavras.

O fato é que Joana usava o código do Grande Reino, uma espécie de tatuagem mutante que a côrte ostenta com desenvoltura. Joana, em seus dois primeiros registros fotográficos, usava um brasão: uma bolsa “ rara”, o que no dialeto quer dizer muito cara e feita em pequena quantidade para criar perversa ilusão de falta, parte do grupo seleto de bolsas que os infames batizaram de “it bags”.

E Joana, tão linda que é, dobrava os braços de forma a fazer deles uma vitrine para a atrocidade da bolsa. Os movimentos congelados, um dos membros escravizado. O gesto é comum nas ruas e nas revistas, a dobradura mecânica, deselegante e fria de um manequim_grosseira imitação de vida.

Pausa para um aforismo fashion: As “ it bags” são as novas algemas. Há tantas novas algemas, todas elas muito velhas. Agora um lançamento de moda: parti-las.

Era uma vez uma mulher que escreveu num livro batizado d’água: “o it vivo é o Deus” . Depois de comer essas palavras com as mãos não há vassalo da dinastia Wintour capaz de convencer que o it possa ser preso numa bolsa_ por mais vistosa, sofisticada e bem realizada que seja, ainda um objeto vulgar. Ai, Senhor, um “ it”  de boutique, “bar-it” , “ fake-it”, um impostor com sorriso de cera.

O it não cabe em nenhuma das bolsas com a marca do Grande Reino da Moda, nem mesmo nas mais lapidadas. O it É: a matemática divina de não conter nem estar contido. Não se pode carregá-lo preso aos braços nem a nada, e o it também não prende: tem a generosidade do Eterno. O it fugidio; se tentamos prendê-lo em forma, nos escorre pelas pernas.

O molhado do cabelo é it. Não é cabelo nem água, é transfiguração. A pele ensolarada. Um arranjo nascido de dentes. A revelação em uma linha curva. Um decote que diz: coração. Um segredo escondido na barriga. O sulco novo de um antiquíssimo espanto. Uns olhos de bicho solto.

Não tem marca esse milagre do it e em verdade vos digo: não se vende. O que não se compra nem se vende irrita muito os homens de negócios, é um prejuízo danado. Por isso tentam enfiar o it em garrafas, uma baixeza. É preciso estar atento e forte_certo de quem ouviu e cantou.

Nota de rodar pés: deixar membros e órgãos livres para as Fantásticas, inexploradas possibilidades do corpo de baile.


Escrito por Vivian às 13h43

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REVOLTA NO RIO-À-PORTER

Contam-me que algumas grifes que participam da feira de negócios Rio-à-Porter, organizada pela Francal e sob os cuidados do Fashion Rio, estariam fazendo um abaixo-assinado e reunindo forças para pedir a devolução das despesas gastas em seus estandes no salão.
 
Os motivos da "revolta" são vários. Para começar, o calor insuportável. Com climatização precária, a feira instalada num dos mercados do cais do porto estava um verdadeiro forno ontem, dia da abertura. Vários clientes teriam deixado o local por causa disso.
 
Estive lá ontem (domingo) e estava realmente muito quente no local. Voltei hoje, e está um pouco menos. A organização ampliou as bocas de ar-condicionado e distribuiu ventiladores para lá e para cá.
 
Em um dos estandes, um vendedor me diz que, apesar das melhorias, alguns de seus clientes não aguentaram o calor e marcaram horário no showroom de São Paulo.
 
Outro vendedor diz que está com vergonha de indicar o banheiro do Rio-à-Porter para suas clientes. "Fica num contâiner. Eu tenho clientes que são pessoas das elites do país. Não posso indicar a elas um banheiro que fica num container, pequeno e sufocante", afirma.
 
Fui conferir o banheiro. É um container de fato, de cerca de 4 metros quadrados, que, além de abafado, treme levemente o tempo todo, talvez devido ao trânsito pesado da avenida em frente ao porto.
 
Ouço mais um vendedor. Ele revela que trouxe marmita de um restaurante de fora do evento. "O único restaurante que presta nesta feira ontem não tinha garfo. Minha cliente teve que comer a massa com colher de plástico", ele conta, e me mostra a foto. "Fotografei, sim, porque, senão, ninguém acreditaria que aqui se come penne com colher de plástico!"
 

Escrito por Alcino Leite Neto às 18h06

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FASHION RIO: SANTORO, MARINHEIROS E A PORNOGRAFIA COMO CULTURA

Foi punk o início do Fashion Rio. A coleção da Auslander se inspirou em neopunks ou neogóticos de boutique (tipo Alice Dellal) e parou aí, sem acrescentar coisa alguma a esse estilo, já muito explorado. Para culminar, colocou na passarela Rodrigo Santoro fazendo publicidade do Blackberry. "Não existe vida sem blackberry", dizia o escrito na camiseta que compunha o look pífio do ator. Só mesmo semanas de moda, com sua domesticação e normatização, para juntarem fachada rebelde com conteúdo publicitário.

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Outra camiseta da Auslander dizia: "Porn is the new black" (O pornô é o novo preto"). Se assim for, então o Fashion Rio vai ser tão quente quanto a temperatura do Rio, que chegava ontem (sexta) a 30 graus.

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(Várias pessoas vieram me perguntar como eu conseguia estar de terno com um calor desses _porque, como você sabe, caro leitor-fashionista, no Rio, e no Fashion Rio, o traje masculino dominante é camiseta, bermuda e tênis. Como foram muitas as pessoas a me inquirir, achei por bem abrir aqui este parênteses para falar très ou quatro coisas sobre o assunto.

Primeiro, existem tecidos de ternos que esquentam muito menos que alguns tecidos de camisetas, como existem sapatos muitos menos quentes que determinados tênis.

Segundo, não é diminuíndo o tamanho da roupa ou o número de peças que se sentirá menos calor, muitas vezes ocorre o contrário _haja vista os nômades do deserto, que, para se protegerem do sol, andam cobertos dos pés à cabeça sob um calor de mais de 40 graus. A roupa, dependendo qual seja, pode ser uma proteção contra o calor.

Terceiro, ternos e paletós são utilíssimos, por conterem vários bolsos. Um jornalista a trabalho pode portar neles todo o seu material: celulares, bloco de notas, canetas, cigarro..., sem precisar levar bolsa ou mochila.

Quarto, o uso de terno, de calça-camisa e de sapatos é um hábito sociocultural, que faz parte da vida cotidiana de algumas pessoas. Fecho os parênteses).

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Volto ao pornô. A Auslander deu a dica, mas não explorou o assunto (renderia mais que o neopunk). Será que algum desfile das fashion weeks brasileiras ousará entrar por esta seara: o pornô como nova indústria cultural e crescente entretenimento de massas, com alto nível de especialização, produção e irradiação (sobretudo nos meios eletrônicos)?

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Na moda, ainda se separa sensual de sexual. Mas os editoriais fotográficos sempre flertaram forte com o erotismo _e, recentemente, andam flertando de maneira bem despudorada. Há fotógrafos que chegam bem na fronteira entre as coisas, como Terry Richardson. Outros, disfarçam um pouco mais, mas são na verdade pornô-chique, como Mario Testino no livro "MaRio de Janeiro". Haverá o dia em que, sendo ambas filhas diletas do inconsciente, a moda encontrará sem meios tons a pornografia?

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Não chegou a ser pornô, mas foi bastante erótico, achei, o desfile de Giulia Borges, com suas garotas meio lolitas, meio colegiais, meio ingênuas, meio safadinhas.

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Melk Zda é um sujeito talentoso. Mostrou uma coleção inspirada na carpintaria. A ideia é interessante, e ele conseguiu boas coisas, em forte trabalho artesanal, moldando os tecidos como se fossem lâminas de madeira, as estruturas das roupas como se fossem móveis, e por aí vai. O conceito, porém, foi melhor que a realização _e os detalhes mais fascinantes que o todo. Falta um certo olhar autocrítico ao estilista (e mesmo alguma ironia). A solenidade dos looks, a pomposidade da realização, sempre acaba dando um ar um pouco kitsch ao conjunto.

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Kitsch mesmo, porém, foi a coleção de Viktor Dzenk, inspirada na Grécia clássica, seguindo a onda dos esvoaçantes e drapeados que bateu na Europa nos últimos tempos. A gente já "se acostumamos" com ele. Dzenk é caprichoso na confecção que se propõe, apesar do gosto duvidoso. Suas roupas fascinam personalidades tipo "Caras", como Suzana Vieira e Narcisa Tamborideguy, que estavam na plateia. A apoteose da apresentação chegou com a série de looks estampados com nebulosas ou imagens do cosmos. Verdadeira peruagem sideral.

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Mais divertido que tudo isso são os dois navios de guerra franceses ancorados no píer, o Jeanne d'Arc e o Courbet, exatamente diante do espaço do Fashion Rio, impedindo a vista do mar. Equipados com disparadores dos mísseis, as más línguas diziam que eles estavam ali para atacar os desfiles ruins.

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Outra "boutade" a respeito dos navios é que eles estão no local aguardando a decisão de Lula a respeito da compra de caças aéreos. O país hesita entre adquirir o produto francês ou o sueco. Se Lula resolver pelos sueco, os navios franceses estariam prontos a responder à desfeita, atacando o Fashion Rio.

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Alguém me sopra no ouvido que a força militar francesa na baía de Guanabara não chega aos pés do poder de Paulo Borges na moda carioca, atualmente. Não só na moda carioca, não é?

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Ainda sobre os navios, muita gente se perguntou por que os marinheiros resolveram se perfilar ontem (sexta) à tardinha na frente da embarcação, exibindo-se para os convidados da semana de moda. Uns disseram que era uma espécie de agradecimento deles ao Rio. Outros falaram que eles se dispuseram de tal maneira para serem fotografados, atendendo a pedidos. Para se precaver das fashionistas mais afoitas, a Prefeitura colocou uma cerca de ferro separando o Fashion Rio dos navios lotados de marinheiros.

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Uma fashionista me conta que um cabaré de moças da vida da praça Mauá (que fica a dois passos do píer onde se realiza o Fashion Rio) hasteou na porta de entrada a bandeira francesa.

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Por falar em moças da vida, a mitológica boate Help fechou ontem as portas. No lugar, vai ser erguido um centro cultural, como se sabe. A festa de despedida deve ter sido memorável. Infelizmente, eu perdi. De um certo ponto de vista, a prostituição permanece relegada ao lado maldito da sociedade, assim como o pornô. As trocas mercantis atuais da cultura parecem bem mais aceitáveis.

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Estou impressionado com a força cada vez maior de infiltração da propaganda, da publicidade e do marketing na própria linguagem corrente do meio da moda. As falas, sobretudo nas coletivas de imprensa, parecem uma sucessão infindável de clichês (auto) promocionais.

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O Fashion Rio, com as conexões que está fazendo entre moda e esporte, no caso devido às Olimpíadas, reforça os nexos entre as duas atividades, que são cada vez mais fortes, como se tem visto nas passarelas internacionais. O esportivo é a moda do futuro.

Escrito por Alcino Leite Neto às 13h03

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PEQUENO MANUAL PARA VESTIR CONCHAS

A leitora C.P., entre questões sérias de seu trabalho universitário, pergunta em tom de brincadeira o que deve usar no Ano Novo. Quer fugir do comum. Respondo que fugir do comum é o que há de mais banal no momento. Acabam todos fugindo para o mesmo lugar, que se torna instantaneamente comum. As modas dessa vida podem ter um gosto especial por becos sem saída.

Às vezes a única saída é aceitar a realidade do beco. Quem fuma talvez acenda um cigarro e espere o mundo passar: pode acontecer de uma porta secreta se abrir, sei lá. Os filmes e, bem antes deles, os livros, dizem que essa época é propensa a milagres em tempos-espaços inóspitos e desertos.

Mas a resposta, diluída em nada, não resolve o problema da leitora, que precisa de fato vestir alguma coisa sólida. Então eu respondo: vista conchas. Não é para qualquer uma, eu sei. Mas, graças às africanas e a um litoral extenso e muito vivo, as brasileiras pegaram o jeito. Clara Nunes, eu me lembro, sabia bem.

Para começar, a concha é casa. Milhões-de-moluscos-moles. Precisam de ossos por fora. Da gelatina nacarada, nasce a carapaça. Morrem os bichos, sobrevivem as conchas, lembranças da natureza insondável de um invertebrado.

E quando o mar invade o escuro da concha feito corpo estranho, cria-se a pérola. A pérola revela um raciocínio muito íntimo da concha: para neutralizar a invasão, é preciso envolver o desconhecido num brilho duro. Um brilho de entranhas de concha.

A pérola, tão nobre, é muito grata à ancestralidade da concha. Para admirar a nobreza da pérola, é preciso saber ler na concha o cravejado profundo do mistério. A concha, estrategista de guerra e arquiteta de esferas, sangra para que brilhe a pérola.

Como nos manuais de " bem vestir", deixo um alerta. Não se trata de as conchas não vão bem para altas, gordas ou magras demais. Nesse ponto, servem para todas. Indicadas estão também para aquelas que sabem usar madeira, pedras brutas e flores verdadeiras: essas terão mais facilidade.

E o alerta vem agora. Basta dizer à leitora que a pérola depois de nascida, por docilidade e generosidade de propósito, aceita vestir até moças frágeis com bochechinhas de blush e senhoras empoadas escolhendo belas joias escondidas num cofre. A concha, não. A concha precisa de uma jovem trabalhadora queimada de sol ou de frio, de uma mulher capaz de estar descalça e sozinha diante do mar às 4h da manhã. No mínimo.

Coragem, meu bem, coragem.

Até 2010.

 

 

Escrito por Vivian às 20h40

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ANIMALE E FARM SE FUNDEM

Duas grifes cariocas acabam de juntar seus negócios, a Animale e a Farm. Cada empresa teria adquirido 30% das ações da outra. Estaria nos planos da Animale formar um grande grupo de moda.

Escrito por Alcino Leite Neto às 16h59

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DELÍCIAS DA CANTORA BRIGITTE BARDOT

Brigitte Bardot fez 75 anos em setembro. Em geral, costumamos lembrar mais da atriz do que da cantora, que ela também foi, com certo sucesso na época. Não mudou os rumos da canção francesa, como pôde mudar os da representação feminina no cinema, mas deixou deliciosas interpretações, várias delas filmadas, felizmente.

Nelas, sempre adquire um ar infantil e malicioso, angelical e sexy, convencional e pop _coisas talvez contraditórias, que seu gênio de atriz e sua potência libertária conseguia reunir como se no mundo não houvesse opostos. Segue uma reunião de canções de BB (todas com letras muito saborosas), para o deleite dos leitores deste blog.

Para começar, "Noir et Blanc", de 1961:

"Invitango", de 1962, que começa assim: "Eu te convido à indecência...":

Imperdível: "Sidonie", também de 1962, do filme "La Vie Privée", de Louis Malle. A letra da canção é do interessantíssimo poeta francês Charles Gros (1842-1888):

Agora, o twist "L'Appareil à Sous", de 1963:

Finalmente, a sensacional "Bonnie and Clyde", de Serge Gainsbourg, num "clip" feito com ele e BB, em 1968:

Com Gainsbourg, ainda, um making off da superpop (para a época) "Comic Strip", em que Bardot praticamente só canta onomatopéias, tipo "bang", "ploft" etc.

Embora sem Bardot, vale a pena ver também esta gravação de Gainsbourg da música que ele dedicou à atriz (e que chegou a gravar com ela), "Initials B.B.":

 

Escrito por Alcino Leite Neto às 00h02

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TOMARA-QUE-CAIA NO CINEMA

Já que o tomara-que-caia está com tudo no Brasil, vale a pena lembrar três aparições deste modelo de vestido em três cenas excepcionais da história do cinema:

Rita Hayworth em "Gilda" (1946), de Charles Vidor:

 

Anita Ekhberg em "A Doce Vida" (1960), de Federico Fellini:

 

Marilyn Monroe, em "Os Homens Preferem as Louras" (1953), de Howard Hawks:  

 

Escrito por Alcino Leite Neto às 00h09

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DESFILES: ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO

A história dos desfiles de moda é fascinante. Tudo começa no final do século 19, quando o costureiro britânico Worth decidiu exibir em Londres um conjunto de manequins vestidos com as roupas criadas por ele. É, portanto, uma história já suficientemente longa, que valeria a pena narrar e estudar.
 
Há poucos livros a respeito. Um deles, que estou lendo, é o ótimo livro-catálogo "Showtime - Le Defilé de Mode", publicado pelo Museu Galliera, de Paris, com ensaios de vários pesquisadores. Mas não vou me estender sobre a obra neste post _deixo para uma próxima vez.
 
Com a licença do professor João Braga, talvez o mais dedicado estudioso da história da moda no Brasil, gostaria apenas de refletir um pouco sobre a relação entre público e privado nos desfiles.
 
Em suas origens, os desfiles eram realizados sobretudo nas "maisons" (casas comerciais) dos estilistas ou mesmo em suas próprias residências. Para a apresentação, os costureiros convidavam clientes (pessoa física), alguns lojistas, amigos e jornalistas, seja de moda ou de outra área, já de olho na difusão de seu trabalho na imprensa.
 
Sendo feito nas "maisons", o próprio nome já diz, os desfiles eram portanto eventos praticamente privados. O costureiro conhecia a maioria dos convidados que lá estava e os recebia num ambiente íntimo _uma sala ou um conjunto de salas_, onde ocorria a exibição das roupas.
 
A prática dos desfiles se irradiou a partir do início do século 20 e foi adotada pelos grandes magazines, não só na Europa, mas também nos Estados Unidos. Nesse caso, os desfiles ou eram feitos em salões ou no próprio espaço de vendas (houve quem os fizesse até no exterior das lojas, nas ruas). Outras iniciativas de exibição pública ocorreram, como as famosas apresentações no litoral francês, quando começa a ser difundida a moda praia. Realizados dessa maneira, nas lojas, nas ruas ou nas praias, os desfiles já não eram apenas eventos privados, mas continham a ambição de se tornarem acontecimentos públicos e "democratizarem", ou pelo menos difundirem, a moda.
 
A partir dos anos 60, os desfilles começaram a sofrer substanciais modificações e, mais ainda, passaram a se inserir diferentemente na sociedade. A crescente curiosidade pela moda, causada inclusive pela emergência do prêt-à-porter (roupas feitas em série), se refletiu na maior difusão das coleções nos meios de comunicação e, consequentemente, no anseio das mídias de toda parte do mundo em comparecer aos desfiles. Os próprios estilistas dos anos 60, inclusive no Brasil, perceberam o potencial dos desfiles como forma de espetáculo, ampliando os flertes da moda com o teatro, a música, o cinema e outras artes (flertes que vinham, aliás, de desde o início do século).
 
Mas é do tempo em que os desfiles eram acontecimentos privados e reservados a poucos que remontam algumas práticas até hoje adotadas nesses eventos de moda, como o hábito de a modelo desfilar na frente de pessoas sentadas em cadeiras, a ideia do convite em papel (e o RSVP - Repondez s'il Vous Plaît, ou seja, a confirmação da presença), a mitologia da "primeira fila" (onde estão os principais convidados), a sensação de privilégio que reina na plateia das salas e mesmo o comparecimento final do estilista na passarela, para agradecimentos, etc.
 
Quando Chanel fazia seus desfiles na sua "maison" da rue Cambon (que existe até hoje em Paris), para poucos e bons, em clima íntimo e elegante, não poderia imaginar que 50 anos depois a grife que leva o seu nome estaria exibindo a nova coleção no gigantesco Grand Palais, com a presença de mais de 2.000 pessoas de toda parte do planeta, amontoadas em várias filas de tablados _talvez um dos maiores espetáculos que é realizado em Paris anualmente.
 
Mesmo assim, as pessoas convidadas _a imprensa internacional, os compradores de todo o mundo etc._ continuam, em sua maioria, indo aos desfiles da grife Chanel vestidas da forma mais elegante que podem, empunhando seu convite nas mãos como um trofeu e trafegando no lugar com um certo ar de superioridade, mesmo se devem sentar lá no fundo da sala, ou assistir ao show em pé.
 
É como se o desfile da Chanel permanecesse um acontecimento privado, quando já se tornou um evento público, realizado inclusive em um palácio (o Grand Palais) que é parte do patrimônio da França, ou seja, do povo francês. Desfile feito, aliás, apenas difundir publicamente (na maior intensidade possível) uma coleção de roupas. O fato de ainda serem restritos, fisicamente falando, a um certo número de pessoas (mesmo que sejam milhares de convidados) não invalida a dimensão pública dos desfiles: a plateia "selecionada"  passou a fazer parte dos próprios shows. 
 
Hoje em dia, os desfiles, mais que servirem à apresentação de roupas para potenciais compradores, são espetáculos públicos, porque difundidos em larga escala pelos meios de comunicação, em todo o país, ou em boa parte do mundo, às vezes em tempo real. A imprensa de moda cobre os desfiles não apenas para reportar os novos estilos e formas. É também observadora e crítica de um espetáculo. Das celebridades presentes, passando pelos fashionistas convidados (e fotografados pelos sites na porta de entrada), até as roupas mostradas nas passarelas, tudo passou a fazer parte da construção da imagem pública de uma grife.
 
Desse modo, se estou correto em meu raciocínio, os desfiles, hoje, em plena era tecnológica, com as sucessivas e enormes transformações na moda e no estilo de vida das pessoas, vivem os seguintes impasses:
 
1) sendo atualmente espetáculos públicos, eles se mantêm, no entanto, presos a certos dogmas de organização e funcionamento muito antiquados, da época em que eram realizados sobretudo em ambientes privados, como, por exemplo, o hábito de dispor hierarquicamente os convidados na plateia;
2) embora importantes para a imagem atual das grifes, os desfiles seguem em geral fórmulas envelhecidas de exibição, como o uso generalizado da passarela reta, a apresentação uma a uma das modelos e até mesmo a música de fundo _usada de maneira simplória e rudimentar (apesar dos esforços, às vezes exagerados, dos DJs).
No Brasil, dada a nossa ligação tênue com a história de requintes e privilégios da alta costura europeia, talvez tenhamos condições de repensar e recriar de maneira mais livre a prática do desfile, espanando os bolores do passado, jogando fora as enrijecidas e já tediosas fórmulas e abrindo para a exibição da moda um campo todo novo de invenções.

Filme mostra coleção de 1968 do estilista André Courrèges; vale a pena aumentar o volume

Escrito por Alcino Leite Neto às 22h18

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DESFILES: RUMO AO FUTURO

Outra questão que se coloca aos desfiles hoje em dia é a importância dos recursos tecnológicos para a exploração de novas formas de apresentação pública das coleções.
 
Nesse território, as coisas ainda engatinham. Mas alguns exemplos de como as tecnologias podem ser úteis ao futuro da moda podem ser vistos em Londres, na pioneira exposição "Showstudio - Fashion Revolution", que foi inaugurada durante os desfiles de setembro e fica em cartaz até o final do ano.
 
A exposição reúne vários projetos feitos pelo fotógrafo e diretor artístico Nick Knight e sua equipe, que têm tentado desenvolver outras maneiras de falar de moda e de exibir as roupas. Para tanto, o grupo utiliza desde a linguagem digital até o grafite, desde o vídeo até a instalação. Vale a pena dar uma olhada no site:  http://www.showstudio.com/project/fashionrevolution.
 
O futuro reserva muitas novidades à exibição das roupas. Pode ser, por exemplo, que em algumas décadas, ou menos, não seja necessário que a imprensa compareça fisicamente a um desfile, pois todos teremos acesso a ele por meio de um visor 3D plugado à transmissão em tempo real, via internet, do espetáculo.

"Fantasia", de Nick Knight

Escrito por Alcino Leite Neto às 22h16

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DESFILES: CONTRA O PARASITISMO NA MODA

É interessante e promissor o trabalho de Knight, mas também há um problema incômodo e persistente no que ele faz: muita coisa parece um arremedo fajuto de experiências antigas já realizadas pelas artes plásticas _que estão bem mais avançadas do que a moda, em termos de exploração das potencialidades das tecnologias.
 
Além disso, como é comum entre fotógrafos e diretores artísticos de moda, há sempre uma irrefreável tendência nos projetos a estetizar tudo, a construir uma imagem-design, decorativa ou publicitária, quando não simplesmente kitsch. Ou seja, muitos projetos de Knight transportam as invenções e experiências das artes plásticas para um terreno onde impera o puro "efeito artístico", esvaziado de toda visão problematizadora e de toda radicalidade.
 
(Aliás, esse não é um problema apenas da moda. Até mesmo o grafite, agora, deixou de ser um ato de intervenção "crítica" _e política_ nas cidades para aderir à estética decorativa e à arte-entretenimento de museus.) 
 
Não sei se faz muito sentido pedir aos profissionais da moda que façam um trabalho tão inquietante quanto o de alguns artistas. Mas é certo que, caso eles queiram buscar novas formas de expressão para a moda e os desfiles, será mais útil e legítimo criar relações colaborativas com artistas do que parasitar o trabalho destes.

 A experiência artística radical de Hélio Oiticica (1937-1980), em trechos do filme "H.O." (1979), de Ivan Cardoso

Escrito por Alcino Leite Neto às 22h15

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A FESTA DO CABELO MOLHADO
(OU DE COMO KATIE GRAND MANTEVE O TÍTULO DE MAIOR STYLIST DO MUNDO COM A AJUDA DO MAR DO RIO DE JANEIRO)

Sair de cabelos molhados é um atrevimento. Os fios ainda úmidos guardam um certo charme de água, dão à mulher uma liberdade de quem desacatou os ferros de esticar e trocou o vento artificial do secador por uma brisa qualquer ou por um pouco de sol.

 

O cabelo molhado é também uma afronta das garotas às suas mães, tão avessas a esse tipo de informalidade capilar. As mães, que segundo as lendas do tempo também foram meninas de algum topete, sabem muito bem do potencial encantador da água e, por um misto de cuidado e falta de generosidade, tentam impedir as filhas de exibirem cabeças molhadas longe de ambientes óbvios como praias e piscinas.

 

Usar cabelo molhado em festas importantes é quase inimaginável. Para essas ocasiões lotam-se os salões, os cabelos viram massa de modelar e saem entre petrificados e calculadamente desarrumados. Molhados? Ah, isso não saem.

 

Mas, no mês passado, aconteceu que uma moça chamada Katie Grand esteve no Rio de Janeiro para uma festa e não foi ao salão de beleza. Mulher de fama e muito jovem, carrega nas costas o título de “a maior stylist do mundo”. Deve ser pesado, imagino. Os títulos são assim: geram expectativas grandes, confundem trabalho e essa substância fugidia (e talvez inexistente) que se chama o eu da pessoa.

 

Houve uma festa na qual Katie Grand era esperada com olhos em brasa. Moças e senhoras em seus melhores modelos, algumas até deformadas pela ânsia de agradar um grande Outro muito exigente, Outro esse que não poderia ser a tão moça-humana Katie Grand, mesmo com seu grande título e influência, mas que ficou sendo, porque explicar o grande Outro é coisa tão fácil quanto achar um Saci já preso na garrafa.

 

Katie Grand entrou num vestido preto, o que decepcionou grande parte da plateia, que imaginava Katie Grand com uma roupa de “maior stylist do mundo”, e essa roupa não seria um tubinho reto da cor que brigou com a luz. Tinha um lenço misterioso amarrado no pescoço (o mistério fica por conta da falta de frio que justificasse o lenço grande, talvez uma dor de garganta) e uma sandália de salto que ninguém pôde identificar como assinada por esse ou por aquele nome, era só uma sandália. Nos cabelos, uma tiara meio desengonçada. E água. Katie Grand foi à grande festa no grande salão do grandiosamente decorado Copacabana Palace de cabelos molhados.

 

Daí que Katie Grand foi chamada então de desleixada. E de gorda. E de feiosa. E de mal vestida. As mais exaltadas queriam arrancar-lhe o título à força. E esses foram apenas alguns dos comentários que circularam entre taças, garçons, moças de nariz empinado e uns poucos quilos de Donatella Versace, essa de cabelos longos, louros, e muito escovados, aparecidos e justinhos no lugar, de certo para combinar com o vestido.  

 

Eu, que nem sou fã das revistas e do título de Katie Grand, não pude desviar os olhos de Katie Grand, porque Katie Grand estava desafiando a festa chique com seus cabelos molhados. Me deu um orgulho de Katie Grand, como se Katie Grand fosse uma amiga querida capaz de uma inadequação assim tão charmosa.

 

Pensando sozinha diante da galeria de espelhos do banheiro do Copa, muito vazio e sinistro, um pouco triste até mesmo para um banheiro, analisei o título de Katie Grand e concluí, afinal, que ele deveria continuar com ela.

 

Numa festa carioca, a tentação da moça estrangeira é afirmar sua estrangeirice com coisas trazidas de seu país ou querer ser um pouco típica do Brasil, o que é de se entender sem pensar muito. O Brasil (seja lá o que for), quando se chega pelo litoral, pode ser extremamente sedutor.

 

Katie Grand quis, quis?não sei se quis, mas o fato é que vestiu, e, sem pensar ou de propósito, o fato é que não há simples acaso, o acaso é sempre complexo, então eu digo assim: Katie Grand vestiu um pouco do Rio, mas não escolheu a cor. Também não arriscou uma estampa tropical. Katie Grand não subiu na sandália de prata nem tentou balançar uns balangandãs. Do Rio, Katie Grand escolheu o mar. E foi com o mar na cabeça, enfrentando os comentários de desleixada, feia, gorda e mal vestida, ciúme infantil das convidadas, invejosas daquela ideia tão simples do acessório líquido que fez de Katie Grand, a moça estrangeira com o título grande de maior stylist do mundo, a mais carioca entre as presentes e a única capaz de revelar, despudorada, às altas horas da noite e a portas fechadas, que o “it” das meninas do Rio é um atrevimento molhado e ondulado de mar.

Escrito por Vivian às 20h10

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A MODA RURAL DE CHANEL

Um dos lugares-comuns mais utilizados pelo meio fashion, e não só no Brasil, é a expressão: "moda urbana". Há variações, como "mulher urbana", "estilo urbano", "look urbano" etc. Frequentemente, ouvimos estilistas as empregarem, em frases como esta: "Minha coleção é para uma mulher urbana". Ou esta: "Minha moda é muito urbana". E assim por diante.
 
Sempre me causou certa estranheza a associação das palavras "moda" e "urbano", não apenas porque a combinação é utilizada com muita frequência, mas também porque me parece um pleonasmo.
 
É claro que a palavra "moda" pode ser utilizada indiscriminadamente para agrupar as vestimentas e os estilos de diferentes épocas ou lugares, como, por exemplo, quando se diz "moda egípcia" ou "moda das tribos africanas".
 
Mas, no sentido forte, salvo ignorância minha, o conceito "moda" se aplica apenas a um processo socioeconômico que está ligado, justamente, à formação das cidades na época moderna, a partir sobretudo do século 15 e 16, além de estar relacionado à emergência da indústria de tecidos, à formação dos ateliês de costura e à irradiação de estilos (e suas constantes modificações) pelas aristocracias nacionais.
 
À medida que a "moda" vai se tornando cada vez mais um parâmetro de comportamento nas cidades, com o meio aristocrático e burguês adotando as mudanças consecutivas ao sabor da época e das influências, o mundo rural (estamos falando dos milhões de pobres que vivem no campo) permanece em boa parte alheio à moda, alterando muito raramente o estilo de suas vestimentas.
 
A influência da moda se ampliou nas sociedades enquanto a urbanização progredia. Toda uma economia fashion (indústria, grandes magazines, publicações etc.) se desenvolveu a partir da difusão da moda nos pequenos, médios e grandes centros _até o ponto de criarmos megacidades. Parece haver uma relação necessária entre a economia e o ritmo social da urbanização com a difusão da moda. A conferir.
 
Por fim, a própria moda se transformou com as mudanças ocorridas nas cidades. Há poucos anos apenas a população urbana do mundo superou a rural, mas, hoje, podemos falar de cidades "globais" _ou seja, daquelas cidades que estão em permanente conexão entre si, desenvolvendo identidades e nexos comuns e particulares, para além das especificidades nacionais. E podemos também falar, portanto, de uma moda "global". 
 
Embora não estivesse tão sujeito ao movimento de substituições sucessivas implícito na ideia de "moda", isso não quer dizer que o meio rural não criou, de alguma forma, estilos marcantes e relevantes _e basta citar como exemplo a (excepcional) vestimenta do cangaço brasileiro.
 
Há outros casos, relacionados aos costumes de tribos indígenas, de pequenas populações agrárias ou variados grupos que ainda conservam tradições antigas nas roupas. Por isso mesmo, entre fashionistas, há quem se refira a esses estilos como sendo "moda étnica".
 
Referências de tais universos culturais são muito utilizadas em coleções, como base da criação, naturalmente adaptadas ao uso contemporâneo. Nas últimas temporadas de moda, chegou a ser até mesmo chique e "trendy" fazer moda com inspiração "étnica". Mas pouca gente _ou nenhuma_ gosta de referir às suas roupas como sendo baseadas num estilo "rural" ou "do campo", como se isso fosse o mesmo que condenar as criações à inatualidade e ao obsoleto.
 
Foi então que Karl Lagerfeld realizou, para a Chanel, na última temporada em Paris, em outubro, uma extraordinária coleção baseada em elementos campestres _ele jamais se referiu a ela como sendo "étnica"_, e recuperou com determinação o estilo "rural" para a moda.
 
Naturalmente, a coleção "rural" de Lagerfeld é idealizada e nostálgica. Ele criou uma imagem idílica da vida no campo _retrocedendo a um mundo que deixou de existir na França e na Europa desde pelo menos o início do século 20.
 
É também uma coleção escapista, que se refere ao mundo rural como se buscasse um solo firme e de valores "autênticos", a uma sociedade leve, aérea, diurna e agradável _a fim de fornecer um antídoto a este momento sombrio e pesado de crise no prêt-à-porter europeu.
 
Em todo caso, as roupas de Lagerfeld se traduziram numa feliz combinação de referências camponesas e bucólicas com as exigências de estilo atuais. Foi uma engenhosa e feliz coleção, que trouxe um sopro de ar fresco ao ambiente viciado dos desfiles, com suas já cansativas e sempre iguais inspirações "étnicas", "aristocráticas" e "urbanas".
 
Depois da Chanel, podemos falar de "moda rural" sem medo. 
Desfile da Chanel, em outubro, em Paris/Foto: Patrick Kovarick/France Presse

Escrito por Alcino Leite Neto às 13h49

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BRASIL: RURAL E GLOBAL

O Brasil até bem pouco tempo era sobretudo um país rural. Apesar disso, a fim de se conectarem com a lógica mundial da moda e relacionar as elites locais às elites dos países ricos, os designers tentavam evitar a todo custo as referências muito particulares ao campo brasileiro e aos estilos regionais.
 
Nem sempre e nem todos os designers seguiram esse rumo. Houve e há alguns, que, mais ousados, jamais fecharam os olhos ao patrimônio suficientemente rico de formas que existe no interior do país e na nossa história da roupa. Nos anos 60, por exemplo, época de florescimento de um certo nacionalismo, Zuzu Angel buscou várias vezes definir uma moda brasileira a partir da herança local. Deve ter havido outros que tentaram o mesmo, além dela.
 
Mais recentemente, Lino Villaventura e Ronaldo Fraga, para citar apenas dois nomes fortes, têm feito coisa igual com regularidade. Há poucas estações, a estilista Danielle Jensen fez para a Maria Bonita uma maravilhosa coleção baseada nas vestimentas dos jangadeiros nordestinos.
 
Ao contrário do que pensam os mais nacionalistas, o anseio de internacionalização foi bom para a moda brasileira, porque a obrigou (mesmo à custa de cópias sucessivas, hábito que perdura) a se desprovincianizar, a buscar um estilo "intermediário" que conciliasse as particularidades de nossos hábitos com um gosto universal (ou, ao menos, ocidental).
 
Os estilistas mais talentosos sabem, porém, que a moda brasileira só vai se impor ao resto do mundo se conseguir criar este elo difícil entre o que é muito próprio ao estilo do país e o que pode ser compartilhado com o resto da humanidade.
 
Só haverá interesse pela moda brasileira se ela trouxer alguma novidade à cena fashion. Como não se cria "ex nihilo", do nada, a novidade será fruto de uma transfiguração do patrimônio sociocultural do país, relacionando-o às exigências e temas da atualidade  _como fizeram os japoneses durante o "boom" da moda nipônica na França nos anos 70/80.
 
Esse patrimônio é vastíssimo e provém tanto do mundo rural ou litorâneo, quanto do próprio universo urbano (por exemplo, a arquitetura e o design modernistas). Provém tanto do presente, quanto do passado (por exemplo, as fontes negras e indígenas).
 
Além disso, os estilistas enriqueceriam bastante o seu repertório caso se detivessem um pouco na história da arte brasileira, seja a antiga, seja a moderna (por exemplo, o concretismo e o neoconcretismo). Ou mesmo se se dedicassem a acompanhar a arte contemporânea do país, que tem recebido uma atenção internacional muito maior do que a própria moda nacional.
 
É certo, porém, que a principal novidade da moda brasileira haverá de ser sua capacidade de rejuvenescer o design ocidental de moda (por demais exaurido), com aquilo que melhor caracteriza o "estilo" nacional: a elegância sem pompa; o sensualismo das formas, das cores e dos materiais; a combinação não-hierárquica das referências populares locais com o legado das elites europeias; os ricos artesanatos regionais feitos com o cuidado das melhores manufaturas; a "gambiarra" como recurso pragmático e valor criativo; o talento para improvisar; a rapidez de adaptação; a desenvoltura com que ajustamos localmente o patrimônio universal; e, o melhor de tudo, a liberdade com que lidamos e rompemos com os valores tradicionais.
Desfile da Maria Bonita, na SPFW, em junho de 2008/Foto: Alexandre Schneider/Folha Imagem

Escrito por Alcino Leite Neto às 13h49

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A MODA CAIPIRIA DE RITA LEE

Antes de Lagerfeld, foi Rita Lee quem promoveu a "moda rural" nas passarelas, no show-desfile "Nhô Look" da Rhodia, em 1970. O título era, evidentemente, uma sátira ao "new look" de Christian Dior. Conta o crítico Carlos Calado, no livro "Divina Comédia dos Mutantes":
 
"Além de cantar e dançar, [Rita Lee] interpretava o papel de uma garota caipira, Ritinha Malazarte, acompanhada por uma bandinha interiorana com 14 músicos. A coleção exibida por Rita e as manequins do elenco (entre elas Mila Moreira, que depois veio a se tornar atriz) adaptava para o contexto brasileiro a moda 'paysanne', inspirada no vestuário das camponesas europeias".
 
Consta que a coleção também se inspirou na roupa do caipira brasileiro.
 
Quem terá criado essa coleção? Onde estarão as fotos desse desfile pioneiro? Se alguém tiver mais informações, por favor envie para esse blog.

Escrito por Alcino Leite Neto às 13h48

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SAI REGINA GUERREIRO, ENTRA IANÊS NA TNG

A jornalista e crítica de moda Regina Guerreiro não é mais consultora de estilo da TNG para os desfiles da marca no Fashion Rio. No seu lugar, assumiu o artista plástico e stylist Maurício Ianês.

Regina também deixou o cargo de diretora criativa da TNG, posto que ela assumiu neste ano. Segundo a assessoria da grife de Tito Bessa, o motivo da saída da jornalista foi o término do seu contrato com a marca.

Escrito por Alcino Leite Neto às 16h37

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LIÇÕES DE CRÍTICA E DE LIBERDADE

A palestra do professor de filosofia dinamarquês Lars Svendsen no último dia do evento "Pense Moda", na quinta-feira passada, foi bem menos complexa do que as reflexões que ele faz em seu fundamental livro "Fashion: A Philosophy" (Moda: Uma Filosofia).
 
Foi, porém, uma palestra importante, além de provocadora e divertida. Svendsen tem um delicioso senso de humor e, por vezes, vai mais longe: dispara raciocínios e frases de uma ironia demolidora.
 
No livro, Svendsen apresenta e discute as principais teorias já formuladas a respeito da moda, de Simmel a Barthes, de Benjamin a Bourdieu. É um trabalho rigoroso e polêmico, porque o professor dinamarquês, ao mesmo tempo em que destrincha detidamente essas teorias, desmonta vários preconceitos intelectuais a respeito da moda. Além disso, ataca com argumentações decisivas a prática da crítica de moda, tal como é realizada atualmente. Quem quiser saber mais sobre o livro, pode ler uma entrevista que fiz com ele para o "Mais!" http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs3108200806.htm
 
No "Pense Moda", Svendsen falou sobre a necessidade e a importância da crítica para a moda. Parece assunto trivial, mas não é. A crítica de moda, ao contrário do que ocorre em várias outras atividades, é ainda um campo a ser desenvolvido. A palestra pode ser vista no site do evento.
 
Aqui, gostaria apenas de ressaltar algumas ideias lançadas por Svendsen:
 
1. A moda ainda é imatura do ponto de vista intelectual e não consegue conviver com críticas. Segundo ele, a moda precisa "crescer" e aprender a aceitar a crítica.
 
2. A crítica de moda não deve ser uma extensão do marketing das grifes. Os jornalistas de moda não devem ser relações públicas da indústria de moda. "Na maioria das vezes, quando se lê a crítica de moda, parece que só existem obras-primas", disse Svendsen.
 
3. A preocupação das publicações de moda em não desagradar os seus anunciantes é um dos grandes empecilhos à criação de uma verdadeira crítica. "O primeiro leitor das revistas parece ser não o público, mas o anunciante", disparou. E completou: "As revistas de moda parecem ser apenas 'ambientes amigáveis' para os anúncios". Isso cria uma relação de subserviência e de falta de independência muito típica ao jornalismo de moda. Para ele, quebrar essa relação servil é fundamental. A fim de deixar clara como é aberrante essa situação, Svendsen comparou com o que ocorre no meio editorial e nas publicações sobre livros. É impensável que uma grande editora cancele seus anúncios de uma importante revista literária se algumas das obras por ela lançadas forem atacadas pela crítica dessa publicação.
 
4. A crítica é absolutamente necessária para o reconhecimento cultural e intelectual da própria moda. Isto é, enquanto não tiver uma crítica forte, a moda continuará a ser considerada apenas uma atividade preocupada em cobrir as pessoas de roupas, e não um trabalho importante que relaciona design, arte, comportamento e sociedade.
 
Algumas coisas ficaram no ar, lacunares, na reflexão de Svendsen. Por exemplo, a questão de saber como o critério da portabilidade da roupa deve ser tratado pela crítica, já que a moda não cria exclusivamente objetos "artísticos" de contemplação, mas coisas a serem vestidas e usadas, que têm uma função prática e social. Neste caso, não seria a crítica de um desfile limitada e limitadora, já que a maioria das roupas efetivamente usadas pelas pessoas (a "moda" que mais importa para o conjunto da sociedade) está fora das passarelas?  
 
Outro exemplo: será que, a fim de buscar elementos e critérios (hoje quase inexistentes) que ajudem a "criar" uma crítica de moda, estes devem se basear nos modelos consagrados em outras atividades criativas (como as artes plásticas)? Ou será que um novo tipo de crítica deve ser inventado, que tenha mais a ver com a análise sociológica do que com a estética, já que a moda, muito mais que um fato artístico, é um fenômeno social? 
 
São detalhes complicados, penso, que talvez não coubessem no pequeno tempo de uma palestra para um público muito heterogêneo _não exclusivamente acadêmico.
 
A conferência de Svendsen, no entanto, se bem entendida em suas linhas essenciais, trouxe uma grande contribuição ao debate (crucial) sobre o futuro da crítica de moda. Espero que as reflexões do professor dinamarquês possam florescer no terreno movediço da moda brasileira.

Escrito por Alcino Leite Neto às 23h24

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MJ PEDE SILÊNCIO

O filme sobre os ensaios do último show de Michael Jackson, "This Is It", deixa muito a desejar em termos de expressão cinematográfica e documentarística. Mas é quase impossível não se emocionar ao assisti-lo e se interessar pelo que foi registrado ali. Há coisas incríveis, a começar do fato de que, embora o filme tenha sido feito pouco tempo antes da morte do cantor, MJ aparenta estar muito bem, tanto física quanto intelectualmente (o que acentua a dimensão trágica de sua morte).

Creio também que nunca foram exibidos com tanta clareza estes traços da personalidade de MJ: seu perfeccionismo no trabalho, sua exigência e ao mesmo tempo a sua delicadeza no trato com as pessoas (ele pede e sugere mudanças, agradecendo com palavras como: "amor" e "deus te abençoe"), a facção infantil de sua psicologia convivendo sem dificuldades com as reações mais maduras e auto-confiantes... 
 
Duas coisas me chamaram a atenção no filme. Primeiramente (como me alertou Cleusa Turra), o controle total que ele exerce sobre os ensaios do espetáculo (transformando o diretor do show e do filme, Kenny Ortega, em simples executor) e o tremendo apreço que tem pelo público. Para começar, ele não deseja mudar nada nas suas músicas, porque quer que a plateia as ouça exatamente como se acostumou a escutá-las nos discos.
 
MJ constroi todo o show visando causar um fortíssimo impacto na audiência. O show, tal como podemos vislumbrar, seria um espetáculo total _utilizando recursos do cinema, da pirotecnica, do circo, da tecnologia 3-D etc._, levando às últimas consequências a ambição de provocar uma experiência emocional total e "totalitária" na audiência (o pop talvez seja o derradeiro lugar do velho "sublime artístico"). 
 
Ao mesmo tempo, o show, isso está bem claro no filme, é para MJ uma espécie de "oferenda" que ele entrega à plateia. Parece que, na sua imaginação, o espetáculo deveria significar uma demonstração de amor pelo público. É incrível que esse sujeito de 50 anos que parece fisicamente um adolescente, apesar da mutação bizarra a que submeteu seu rosto (nunca mostrado em close, aliás), esse sujeito que foi vilipendiado durante anos pela opinião pública, não tenha sombra de ressentimento.  
 
Outra coisa que me impressionou foi um pequeno detalhe. Por três vezes, MJ insiste, durante os ensaios, na importância do silêncio em determinadas passagens de algumas canções. De repente, ele pede que a música seja suspensa, que a parafernália técnica e instrumental emudeça, para que o silêncio domine o palco, domine o público, domine o espaço-tempo. Faz-se silêncio no filme _e a figura esguia, estranha, solitária e genial de MJ parece mergulhar no vácuo. O efeito é extraordinário e devastador.

Escrito por Alcino Leite Neto às 17h01

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AS MINISSAIAS CONTRA AS BESTAS

Peço licença ao leitor para republicar abaixo um artigo que escrevi há mais de cinco anos, em defesa da minissaia e da liberdade da mulher. O motivo é manifestar minha indignação com o episódio ocorrido com uma jovem de 20 anos, que foi humilhada e quase linchada por alunos da Uniban (Universidade Bandeirantes de São Paulo) por ter ido à aula com um microvestido, conforme relatam na Folha de hoje as jornalistas Laura Capriglione e Marlene Bergamo.

Acossada por ignorantes, que colocavam o celular entre as pernas da moça para tirar fotos e a ameaçavam com gritos de "estupra!", ela só conseguiu se livrar da perseguição depois que a polícia chegou à faculdade. Mesmo escoltada pela PM, ainda foi objeto de deboches.

Tenho a sensação de que os agressores masculinos enxovalharam a estudante porque, impressionados pela exuberância da jovem, se deram conta da maneira medíocre com que lidam com seu desejo _pensamento doloroso, que eles tentaram apagar com a violência. E as agressoras femininas (porque também as houve), certamente não se conformaram com a graça e a desenvoltura da moça de 1m70, cabelos loiros, olhos verdes e, ainda por cima, um minivestido rosa-choque. Parece tratar-se de um típico (e grave) caso de irradiação coletiva do ressentimento. 

A minissaia foi criada nos anos 60, em meio às lutas pela libertação da mulher. Quando uma jovem coloca uma minissaia, portanto, ela está vestindo também um emblema da liberdade _liberdade inclusive de exibir o corpo e se vestir como quiser, sem ficar dando satisfações às normas morais ditadas pelos homens ou às regras de comportamento prescritas pela etiqueta, o que dá no mesmo: são ambas formas de controle. É impressionante que o potencial "revolucionário" das roupas curtas não tenha se esgotado, mesmo após chegarmos ao século 21.

Diante do fato brutal ocorrido na Uniban, a pior reação das alunas esclarecidas desta escola seria, agora, temer os microvestidos, endossar a hipocrisia e negar a autonomia individual que possuem, cobrindo-se dos pés à cabeça.

Contra os "talebans da faculdade" (como os chamou a reportagem), contra o espírito mesquinho, ignorante e ressentido dos alunos que atacaram a jovem, sugiro às garotas da Uniban que realizem um protesto conjunto, indo todas elas ao mesmo tempo à aula com microvestidos e minissaias.

Seria a melhor maneira de demonstrar a esses sujeitos covardes e abestalhados que as mulheres não têm medo de exibir a força e a beleza de sua liberdade.

Transcrevo a seguir o artigo, tal como foi publicado em 1/2/2004:

 

POR UMA NOVA REBELIÃO DAS MINISSAIAS
 
 
Um passeio pelos Jardins, em São Paulo, e a deliciosa constatação: as minissaias realmente estão de volta. Talvez seja pura utopia, mas haverá um dia em que elas não deixarão mais a humanidade para se esconder no armário de roupas em desuso. A vida será um perpétuo verão de minissaias.

A minissaia foi uma das invenções sublimes do século 20. O pequeno corte de tecido que envolve as nádegas desaforadamente, exibe com decisão a nudez das pernas e chega quase até o limite das promessas femininas é um achado estilístico --sintético, econômico e engenhoso: um hai-kai da moda.

Sem contar que é um emblema da liberdade. Toda vez que uma garota veste hoje uma minissaia, ela está portando ao mesmo tempo a lembrança de uma rebelião.

A história da mulher poderia ser dividida em duas partes: antes e depois da minissaia, como se divide mais frequentemente em antes e depois da pílula anticoncepcional --aliás, duas criações que se difundiram quase ao mesmo tempo. Passarão muitos séculos até que se tenha uma idéia tão provocadora, elegante e feliz de vestimenta.

A invenção da minissaia é fonte de querelas tão complicadas quanto a do avião, que divide o mundo entre os defensores dos irmãos Wright e os do nosso Santos-Dumont. Para os britânicos, foi Mary Quant quem criou a minissaia, por volta de 1964-1965. A tese tem o apoio da maioria dos especialistas, mas há autoridades francesas no assunto que insistem que a minissaia foi projetada por André Courrèges, talvez o estilista mais ousado dos anos 60.

Melhor talvez seja se fiar na própria Mary Quant, que indagada sobre a origem da minissaia, respondeu: "Não fui eu ou Corrèges quem a inventou --foram as garotas na rua".

Naqueles anos 60, as mulheres ainda não se torturavam tanto com as dietas e as celulites, e vestir uma minissaia não era apenas uma questão ocasional de estilo: por força da história, a moda implicava, mesmo involuntariamente, numa atitude existencial em favor da liberdade.

Os homens chegaram a usar saiotes na Antiguidade romana e na Renascença para terem mais autonomia de movimento durante as lutas e as guerras. Eles obrigaram as mulheres, porém, a se cobrir dos pés à cabeça durante milênios, e ainda as obrigam, em certos países. Mesmo eles se cobriram bastante ao longo dos séculos. A moda é uma das mais resistentes formas de tirania social --hoje, de um tipo de tirania consentida, de servidão voluntária ao mercado.

Mas, nos anos 60, as moças adotaram a minissaia como afronta ao jugo moral imposto pelo homem e para promover a liberação das gerações femininas futuras. Foi uma febre que então se espalhou muito mais rapidamente que as calças compridas para mulheres, um outro signo de rebeldia, difundido lentamente a partir dos anos 30, sobretudo graças à estilista francesa Gabrielle "Coco" Chanel.

Quem era criança na época de Mary Quant e de Wanderléa deve se lembrar que, no Brasil patriarcal e provinciano, a calça feminina nem bem estava ainda implantada, quando, um belo dia, começaram a aparecer uma multidão de pernas nuas de moças bem fornidas vestidas de minissaias.

E deve se lembrar como as calcinhas de repente fizeram também a sua aparição transgressiva, como um vislumbre que se tinha no momento em que as moças de saias curtíssimas entrecruzavam as pernas ou subiam as escadas na nossa frente. Os anos 60 realmente colocaram o mundo de ponta-cabeça.

Talvez seja apenas por um resto de convenção, mais que de pudor, que as garotas de hoje em dia, nos ambientes sociais, fiquem puxando insistentemente para baixo a sua minissaia, tentando ajustá-la numa altura discreta, meçam detidamente o modo de cruzar as pernas ou, ao subir as escadas rolantes, peçam que os namorados fiquem atrás delas, impedindo que os passantes tenham uma visão indiscreta.

Convenção, sim, pois as calcinhas já viraram até mesmo um acessório a se exibir, como os soutiens. Um dos estilos contemporâneos consiste em colocar os jeans suficientemente baixo para que uma boa parte da calcinha apareça entre a cintura e a miniblusa. Os garotos fazem o mesmo, com um modo de vestir as calças que as dispõe bem abaixo da cintura, enquanto sobem a cueca, deixando-a bastante visível.

Esse estilo denota a necessidade de meninos e meninas acentuarem sua diferença sexual por meio da exibição das peças íntimas, já que na superfície dos jeans e camisetas há uma forte tendência à indiferenciação na moda de ambos.

Outra contenda complicada e sem fim em relação à minissaia é a que trata do tamanho ideal desta roupa. Certamente cada corpo feminino pede um modelo diferente, mas eu tenho cá comigo que o melhor tamanho é o de 20 centímetros de altura, e não o de 30 centímetros. E não vai aqui nenhuma segunda intenção: estou pensando apenas na graça que é ver passar uma mulher que assumiu decididamente a vontade de usar uma minissaia e exibir seu corpo. Uma minissaia "longa" tem algo de um hipócrita arrependimento.

Deve haver feministas que hoje contestam a minissaia, por esta ter esgotado o seu potencial revolucionário e se transformado em puro fetiche, um meio de exploração voyeurística do corpo feminino. Será?

É certo que as mulheres continuam a ser muito exploradas _só não vê quem não quer. Nos mesmos anos 60, alguns já percebiam como a liberação feminina poderia ser absorvida maliciosamente pela publicidade e a emergente indústria da pornografia. Prisioneiras sexuais seculares, as mulheres se revoltaram para, em seguida, serem transformadas livremente em mercadoria do entretenimento masculino.

Sem falar que, liberadas da norma puritana, elas foram enquadradas de imediato num outro regime despótico, aquele que lhes pede um corpo perfeito. É essa fantasia de perfeição que alimenta a poderosa indústria da beleza, das dietas, da moda e das ginásticas no mundo.

Ainda se contará a história medievalíssima dos tormentos interiores e físicos, das auto-punições, torturas e doenças, da longa série de angústias com regimes, das anorexias perigosas, das depressões infindas que vão fazendo a história da mulher no período pós-feminista.

Há quem diga que a minissaia cai melhor nos corpos jovens e bem feitos. Mas por que diabos qualquer mulher, a menos certinha dentre elas, não poderia usar uma saia curtíssima?

Eis uma nova forma de vestir revolucionariamente a minissaia: rompendo com esta lei tirânica que se impôs às mulheres em nome do fantasma da perfeição física. A exibição assumida das imperfeições do corpo, a exibição do corpo como singularidade, é o modo atual de elas lutarem contra a dominação masculina e também contra as pressões servis que as próprias mulheres se impõem mutuamente nos desfiles de moda, nas revistas, nos programas de TV, nas conversas soltas.

E assim eu termino este manifesto em prol da rebelião das saias curtas: que todas as mulheres possam exibir soberanamente seus corpos tais como eles são! Que todas as mulheres usem minissaias sem medos nem rancores! E que todas as minissaias tenham no máximo 20 centímetros!

 

Escrito por Alcino Leite Neto às 00h36

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PERFIL

Alcino Leite Neto Alcino Leite Neto, 49, é editor de Moda da Folha, jornal onde exerceu anteriormente as funções de editor da Ilustrada, do Mais!, de Domingo e de correspondente em Paris.

Vivian Whiteman Vivian Whiteman, 30, é jornalista cultural desde 1998 e repórter da editoria de Moda da Folha desde 2005.

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