DE COMO FRANCISCO ATRAVESSOU O BURACO DA AGULHA
São Francisco de Assis é, até hoje, um dos santos mais reverenciados pelos católicos. Em 2007, quando foram comemorados os 800 anos da conversão de Francisco à fé cristã, o papa Bento 16 foi a Assis, na Itália, para homenageá-lo, seguindo os passos de seus antecessores_ especialmente os de João Paulo 2º, que tinha especial apreço pelo santo italiano. A santidade é um título, concedido segundo critérios determinados pela Igreja Católica. Quando acompanhei a canonização de Madre Paulina, em Roma, funcionava, grosso modo, assim: é feito um longo relatório da vida do candidato e, confirmadas as “virtudes cristãs” do analisado, segue-se uma investigação dos milagres atribuídos a ele, geralmente póstumos. Nos últimos anos, ao que parece, a rigidez não é a mesma_ novos santos, novos fieis, segundo as “más línguas”.
O fato é que a vida de São Francisco, milagres oficiais à parte, é sensacional de qualquer maneira. Não é à toa que foi retratada em uma série de livros e filmes, entre eles, “Irmão Sol, Irmã Lua”, de Franco Zefirelli. Separei aqui duas cenas desse título para uma análise que aborda alguns (dos muitos) aspectos da relação entre as roupas e o cristianismo.
Francisco, nascido por volta do ano 1181, era filho de burgueses em ascensão_ seus pais eram bem-sucedidos comerciantes de tecidos. Nos primeiros anos de sua juventude, o futuro santo era descrito como boêmio, dado a festas e noitadas. Era considerado o “rei da juventude” em Assis, ou seja, era o playboy mais popular de sua cidade natal. Contam alguns escritos que, antes de sua conversão, ele participado de uma última “balada” sensacional com seus amigos.
Decidido a ser cavaleiro, chegou a lutar numa guerra entre províncias, foi feito prisioneiro e ficou muito doente durante alguns anos. Recuperado, Francisco quis voltar a lutar por sua cidade em novos conflitos que surgiram em meados de 1205. Nessa época, porém, começou a ter visões e deixou de lado os planos de partir para a guerra. Em São Damião, escutou uma mensagem que atribuiu ao Espírito Santo. A “voz”, vinda de um crucifixo, diz: “Francisco, vai e repara a minha Igreja, que está em ruínas”.
Humilde, Francisco interpreta a mensagem literalmente, e rouba vários fardos de tecido da loja do pai com a intenção de vendê-los e restaurar a igreja de São Damião. O plano é descoberto e o pai de Francisco vai se queixar ao Bispo, tomando o filho como louco.
Numa das passagens mais bonitas dessa história, também mostrada por Zefirelli, Franscisco se despe de suas roupas de burguês, renuncia à sua herança e declara diante do Bispo e dos pais que, a partir de então, viveria segundo o exemplo de Cristo, sem acumular nenhum bem e ajudando pobres e necessitados. A troca da roupa “burguesa” pela nudez (do renascimento na fé de Cristo) e depois por uma túnica de tecido tosco (representando tanto o desapego material quanto o desligamento da classe “rica” e o voto de pobreza) revela um simbolismo muito interessante.
Mas vejamos as cenas dos vídeos. Elas tratam do encontro de Francisco e sua banca _ como Jesus, ele fez “apóstolos”, todos muito jovens como ele_ com o papa Inocêncio 3º. Francisco havia se tornado influente na área em que vivia, e vários jovens estavam abandonando a cidade para segui-lo em sua comuna cristã. Os governantes acusavam o pobre de “virar a cabeça” dos adolescentes. Inconformado, ele junta o grupo e vai à Roma pedir orientação ao papa.
Chegando lá, Francisco tem um estalo revelador resolve trocar a carta-padrão que deveria ler, pedindo autorização para seguir com sua obra, por um discurso que irrita a alta roda da Igreja.
Começa fulminante, lançando o Evangelho de São Mateus (6:26-30), na famosa passagem dos “lírios (ou flores) do campo”, que está cheia de referências à vestimenta.
"Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam, nem recolhem nos celeiros e vosso Pai celeste as alimenta. Não valeis vós muito mais que elas? Qual de vós, por mais que se esforce, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida? E por que vos inquietais com as vestes? Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam. Entretanto, eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles. Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé." Vestidos em trajes vergonhosamente pomposos, adornados com ouro e sentados em troninhos, os membros da audiência tocam o terror contra Francisco, que, arrastado para fora, ainda solta o bombástico Mateus 6:24 (que também está em Lucas 16:13):
"Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará a um e amará o outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza."
Viiiiiixe.
O papa fica passado. Conta-se que ele havia tido um sonho premonitório sobre a visita de Francisco. E a cena em que Inocêncio chama de novo o grupo descalço, sujo e maltrapilho é muito boa.
Os puxa-sacos papais filmando, puro veneno. Close nos pés sujos e descalços, considerados sinais de humildade. O papa, que na cena anterior sai do seu manto invólucro (um espécie de caixão?) desce escadarias ricas, como se viesse ele mesmo do Céu. Lembrem-se que ele está sentado no trono central, abaixo e sempre de costas para a imagem de Jesus, que paira sobre sua cabeça numa transferência clara de poder.
O papa desce envolto apenas numa túnica branca, o que agora lhe dá o aspecto de um velho indefeso ou, poderíamos arriscar, até de uma alma desencarnada. Francisco e seus amigos têm o topo da cabeça descobertos, abertos à luz. Segue-se um diálogo em que o papa admite o quanto as questões de poder, ego e burocracia da Igreja o afastaram de sua vocação e dos fundamentos de sua fé. E vem mais uma referência à vestimenta, que funciona tanto na interpretação literal quanto numa leitura metafórica:
“Nós estamos cobertos de riqueza e poder. Vocês em sua pobreza [o papa puxa um pedaço do tecido da túnica de Francisco] nos deixam envergonhados”
Segue uma triangulação de transferência genial. O papa vira de costas e enxerga seu manto papal vazio. Olha para a imagem de Jesus e se volta para Francisco. Neste movimento, o Cristo encarnado está em Francisco e seu exemplo vivo (o que já está anunciado no final da primeira cena).
Reparem nos olhos de êxtase do papa, como se visse o próprio Jesus; ele se ajoelha e beija os pés de Francisco. Nessa inversão, os puxa-sacos recolhem o papa a seu inferno burocrático e os olhos de Francisco são os de Jesus diante da ovelha desgarrada. Ele, que havia ido a Roma para pedir conselhos ao papa, agora olha com piedade, estica os braços para alcançá-lo e parece muito triste em deixar o velhinho para trás.
A Igreja que Francisco foi chamado a restaurar está ali: não uma construção material, mas a própria Igreja como instituição corrompida e afastada dos ensinamentos de Cristo e seus primeiros apóstolos_ a banca de 12 irmãos, 12 manos.
Muitos teólogos já estabeleceram as relações entre a doutrina cristã revelada nas palavras de Jesus compiladas por seus discípulos (mesmo com todas as questões não-respondidas sobre a autoria dos textos) e os fundamentos de sociedades comunistas, séculos antes que eles fossem transformados em sistema político.
Existe uma passagem célebre que aparece no Novo Testamento em Marcos, Mateus e Lucas. Um jovem pergunta a Jesus o que fazer para entrar no reino dos Céus, já que vinha praticando todos os mandamentos. Sem titubear, Jesus diz ao jovem que venda tudo o que possui, distribua entre os pobres e o siga. O moço vai embora desconsolado: era rico e não estava pronto para se desfazer de seus bens, nem mesmo para seguir o nazareno, em quem ele acreditava e a quem chamava de mestre.
E Jesus metralha: “Filhinhos, quão difícil é entrarem no Reino de Deus os que põem a sua confiança nas riquezas! É mais fácil passar o camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar o rico no Reino de Deus”. Sem palavras. E vejam que o reino de Deus não precisa ser pós-morte, mas uma forma mais justa e menos cruel de vida terrena.
Aí está muito do poder de Francisco, o homem Francisco. Ele, séculos mais tarde, aceitou o desafio de Jesus (pense nele como homem ou Deus encarnado, a pegada não muda), fez o que parecia impossível, passou o camelo pelo buraco da agulha. Não é à toa que Francisco foi logo adotado e mantido em alta estima pela Igreja Católica. A força de seu exemplo, de sua decisão simples, sua escolha de homem comum, é forte demais, guarda ideias explosivas, deixa qualquer Che no chinelo.
Não está nas esperanças do “senso comum” (essa entidade-fantasma) que no tempo atual os jovens que vivem aí pelo mundão façam escolhas de renúncia tão radicais (já pensaram? Assim fica pequeno falar em “atitude” e “lifestyle”, não?). Porém, um exercício mínimo de desapego, de desreificação dos objetos, da libertação via distribuição de privilégios, estremece até o talo a multidão de existências vãs, afundadas no vazio. Não precisa ir ao limite da situação, mas pensar em compartilhar (a "roupa boa", não só a "roupa velha de esmola"), olhar para os lados e constatar que tem alguma coisa muito errada, não faz mal a ninguém.
Escrito por Vivian às 22h02
FRANCISCO - SECOND COMING
Zefirelli e seu Francisco angelical foram muito criticados, até porque o filme foi lançado em pleno domínio do “Flower Power” e acabou visto como panfleto hippie, com direito a trilha folk (e linda) de Donovan. Cai naquela velha anedota do Jesus “paz e amor”, ripongão, que quem leu a “Bíblia” sabe que é furada. Aliás, a “Bíblia” é um livro obrigatório, seja você cristão “indie”, católico, ateu, pagão ou seguidor da baboseira ridícula da cientologia. Os textos bíblicos, especialmente Jó e todo o Novo Testamento são obras geniais do Homem. Estão no “Ulisses” de James Joyce, na literatura de Clarice Lispector e em tantas outras obras contemporâneas. Leia as cartas de Paulo e pague um pau. Eu pago dez.
Voltando ao filme, há de fato esse elemento bicho-grilo, mas existem várias cenas que revelam a violência amorosa do caminho de Francisco. Zefirelli, apesar de doce e sentimental, tem muitos méritos aí. Mostra a dificuldade que as pessoas têm em aceitar o amor ao próximo, a renúncia, o não-querer nada para si, a fé genuína, viva e desinteressada, o sacrifício, a compaixão. Francisco descalço e esfarrapado recitando o Evangelho na frente do papa, cara a cara, é violento no grau mil. O amor, nesse contexto extremo, é uma granada na boca, não é qualquer um que segura. Mas deixa pra lá, que estamos entrando em terreno minado...
Só para finalizar, vamos viajar aqui, que não custa nada. Eu já imaginei um Racionais na trilha. Pela composição das letras e pelo climão das bases sensacionais do KL Jay. Na cena da conversão (ou até no transe do papa) aquele trechinho de Vida Loka 2, “só quem é, só quem é vai sentir”. E depois um pedaço de “A Vida é Desafio”, aquele que começa assim: “conheci o Paraíso e eu conheço o Inferno. Vi Jesus de calça bege e o diabo vestido de terno. Mundo moderno, as pessoas não se falam. Ao contrário, se calam, se pisam, se traem, se matam. Embaralho as cartas da inveja e da traição. Copa, ouro e uma espada na mão. O que é bom é pra si, o que sobra é do outro. Que nem o sol que aquece, mas também apodrece o esgoto”.
É quente.
Escrito por Vivian às 22h01
HERCHCOVITCH NA ROSA CHÁ
A moda brasileira virou uma caixinha de surpresas. Entra semana, sai semana, há uma novidade de arrepiar. A mais nova delas é a saída de Amir Slama da Rosa Chá e a entronização de Alexandre Herchcovitch como novo diretor de criação da famosa grife de moda praia.
A Rosa Chá tem um patrimônio “estilístico” de anos. O mais natural será que Herchcovitch estude esse legado para, num primeiro momento, escolher nele os elementos que deverão ser as linhas-mestras de seu trabalho. Só no Brasil imagina-se que uma grife, ao trocar um estilista, irá recomeçar do zero. Pensar assim é abrir a porta à hecatombe.
Imagino, porém, que essas vendas de grifes seriam menos traumáticas para os estilistas brasileiros, e eles talvez até aceitassem conceder em “a” ou “b” (concessões que eles próprios já faziam quando eram os donos, é bom não esquecer), caso os empresários locais demonstrassem mais respeito pela trajetória das marcas e não buscassem desfigurá-las a toda vapor, movidos pelo imediatismo comercial que faz parte de nossa cultura. Na moda, esse imediatismo é letal.
O longo entrelace entre vida pessoal e familiar com os negócios impede que tratem com objetividade seja a questão produtiva e mercantil, seja a questão criativa (como se a criação fosse também um capricho, e não um trabalho, uma construção, um projeto). A moda é uma atividade feita ao mesmo tempo de alguma arte e de muito comércio. Despreze um destes dois elementos, e a própria moda vai se desfazer no ar.
Escrito por Alcino Leite Neto às 16h10
CHANEL: NOVO TRAILER
Outro dia postei um trailer do filme "Coco Antes de Chanel". A Warner, produtora do filme, divulgou outro nesta semana. Para quem se interessa, ele pode ser visto aqui, em Windows Media Player, e aqui2, em QuickTime.
Escrito por Alcino Leite Neto às 15h30
E GANDHI A FIAR...
As modinhas orientalistas enfiadas goela abaixo do mundo ocidental nas últimas décadas são no mínimo lamentáveis. Um remix de pseudofilosofia sem açúcar e sem gordura e práticas físicas transformadas em uma espécie de ginástica com incensos e verniz “espiritualista”_ o combo acompanha cenário “exótico”, figurinos-fantasia e musiquinha nova-era style, a gosto do freguês.
Além de reduzir todas as vertentes da filosofia e da cultura dos países orientais a um saco de produtos e frases de efeito, esse “falso-budismo-light” soterrou com baboseiras as histórias de vida de homens que ousaram discordar.
Gandhi talvez seja o melhor exemplo desse tipo de pasteurização perversa. A imagem de seu corpo já foi usada em milhões de camisetas, copos, pratos, canecas, bolsas de pano, tênis... Suas frases, sempre tiradas de contexto, estampam tantos outros objetos; os centros fake de meditação-ioga-afins usam bastante, pega bem. Gandhi, quem diria, item decorativo.

Wow, adquiri uma bolsa de sabedoria!
A túnica que ele usava, um tecido feito a mão enrolado ao corpo, inspirou peças caríssimas de designers das grandes semanas de moda. Interessante falar, inclusive, dessas túnicas. Mas, antes, o que vem primeiro
.
Gandhi, em primeiro lugar, era um homem. Um homem revolucionário, não um velhinho tipassim meio santo (alguns religiosos hindus diziam que ele seria uma encarnação do deus Vishnu, mas Gandhi repudiava essa ideia), uma mistura de vovô bonzinho e guru faquir. Gandhi era do movimento, filhote, o homem era perigoso (à sua maneira), vagabundo tremia perto dele. Foi preso seis vezes até ser assassinado em 1948 por um “extremista”. Sei...deixa quieto.
Todo mundo já ouviu falar da não-violência, um dos pilares da correria de Gandhi que, nunca é demais lembrar, lutou pela independência da Índia. Queria ver o país livre da dominação (e da exploração sem dó) britânica. Bom, a não-violência é, paradoxalmente, violenta à beça, no sentido de sua força. A não-violência é potente. É a ação incisiva sem agressão sobre a pessoa, é esquecer os tiros e torturas e focar em mobilizações que atacam a base do adversário.
Gandhi nasceu em casta privilegiada, mas era da pá virada. Formado em Direito, trabalhou como advogado na África do Sul, onde defendeu os hindus, minoria no país. E foi só o começo. Na Índia, o movimento de independência que liderou era baseado em atos de desobediência civil_ suas ideias sobre esse tipo de ação foram obviamente influenciadas pelo livro “A Desobediência Civil", de Henry David Thoreau, um dos grandes textos adotados por defensores do anarquismo.
Os protestos pacíficos (que não impediram que muitos de seus camaradas fossem massacrados, mesmo sem reagir), com jejuns e meditações coletivos, eram greves sem usar a palavra greve. O fato era que nessas ocasiões ninguém trabalhava. Gandhi realizou a famosa e fantástica Marcha do Sal, que todo mundo deveria conhecer e compreender. Gandhi, e aí entra os lances das túnicas, também incentivou os indianos a fabricarem seus próprios “panos”.

Gandhi, concentrado, a fiar
A indústria têxtil indiana estava detonada, muito desemprego, tudo para favorecer os produtos manufaturados ingleses. Desempregados e miseráveis, os indianos ainda tinham que pagar caro para se vestir. Foi quando Gandhi organizou um movimento de recuperação do uso da roca de fiar manual, a mais simples e barata de todas. Assim, as pessoas poderiam fiar seu próprio algodão e fariam suas próprias roupas. Com o boicote, afundariam o comércio de roupas britânicas. Gandhi bateu no peito e disse: “aê galera, chega de comprar esses pano do opressor, sacumé?”. Ok, não foi assim, mas a ideia era essa. E a indústria de roupas inglesa sentiu o furo no bolso.
A roca virou um símbolo da luta pela libertação e foi estampada em bandeiras provisórias criadadas pelos que lutavam independência da Índia, que aconteceu em 1947. A bandeira indiana atual, aliás, é estampada com o Ashoka Chakra, a roda do Dharma, que representa 22 virtudes dispostas num sistema circular, muito semelhante à usada para fiar.

Roca de fiar em bandeira de 1921
Gandhi, como eu já disse, nasceu com grana, poderia ter levado uma vida tranquilinha, confortável. Poderia ter passado seus anos de boa, escolhendo alegremente entre A,B,C...ou Z, mas preferiu lutar pela criação de um "novo alfabeto". Pensem nele hoje antes de dormir, o semblante calmo de quem está na linha, na justiça. O discurso que subverte, que busca a verdade da palavra, aquela fora da convenção. Gandhi, quem diria, Vida Loka.
Escrito por Vivian às 19h02
FIGURINOS DE CINEMA
Encontrei na minha última viagem para os desfiles em Paris uma verdadeira preciosidade: uma edição da famosa “La Revue du Cinéma” dedicada inteiramente ao figurino na sétima arte. É coisa rara, não só porque foi publicada em 1949, mas também porque o assunto mereceu pouca atenção da crítica top de cinema nos anos subsequentes.
A revista traz um ótimo ensaio do estilista Jacques Manuel (como ele escreve bem!), que lança um olhar retrospectivo sobre a história do figurino cinematográfico, desde a época do filme mudo. Publica ainda um elucidativo ensaio da pesquisadora Lotte H. Eisner sobre o mesmo assunto no cinema alemão _vale lembrar como o figurino foi importante aos filmes expressionistas. Há outros textos relevantes, entre eles um do cineasta Claude Autant-Lara, que antes de fazer filmes foi figurinista.
Como estamos, Vivian Whiteman e eu, preparando um curso sobre figurino no cinema para a Casa do Saber (em final de junho), a publicação certamente nos será muito útil. Sobretudo no que diz respeito à definição do que é exatamente um figurino de cinema e como ele é parte fundamental da expressão do filme.
Na época da edição da revista (anos 40/50), ainda preocupava à crítica definir a especificidade da linguagem cinematográfica. Qual é o modo singular de expressão do cinema que não pode ser repetido em outra arte ou que não vem de outra arte para as telas? Jacques Manuel, por exemplo, insiste em definir com clareza a diferença entre o figurino dos filmes e o do teatro, pois ainda havia diretores que emprestavam as roupas dos palcos parisienses, indiscriminadamente, na hora de filmar.
Um dos elementos cruciais (há vários) da especificidade do figurino cinematográfico é o fato de que a montagem “recorta” as cenas e o corpo dos personagens (closes, planos médios etc.), dando a ver, portanto, apenas partes das roupas, que, por isso, devem ser igualmente expressivas no conjunto como no detalhe.
A revista traz fotos incríveis de figurinos de filmes, das quais reproduzo apenas uma, o famoso vestido dourado de Brigitte Helm, criado pelo próprio Jacques Manuel para “L'Argent” (O Dinheiro), filme de Marcel L'Herbier, de 1928:

TEATRO SÓ
Já que falei em teatro, aconselho uma peça em cartaz em São Paulo: “Só”, escrita pela italiana Letizia Rosso e dirigida pelo também italiano Alvaro Alvize, talentoso ator-diretor que vive no Brasil. Fica em cartaz até domingo, no Sesc Paulista.
Há várias coisas boas na peça. A direção é segura, mas não autoritária, permitindo ao ator recriar o espetáculo a cada noite. O cenário de Laura Vinci comunica bem com o lado um tanto truncado do texto... Mas o que mais entusiasma é o trabalho do ator João Miguel (de “Cinema, Aspirinas e Urubus” e “Estômago”). Como se trata de um monólogo, acaba resultando num “tour de force” a maneira como ele consegue “segurar” a cena durante quase 50 minutos, sem nunca cansar a plateia.
Ainda mais que, na “primeira metade” da peça, o personagem nos é apresentado de maneira muito “abstrata”, em frases desconexas, como se tratasse de um quebra-cabeça difícil de montar. O espectador está quase desistindo da tarefa de entender um pouco o personagem, quando as coisas começam a ficar mais claras e fortes, no momento em que ele decide enfim contar seu “trauma”, sua “paixão”: uma história de amor homossexual na infância, que o levou a ser expulso de sua cidade.
A estrutura toda da peça é bastante difícil para um ator, que precisa trabalhar com insinuações, auto-censuras, vácuos da ideia, com idas-e-vindas do pensamento, com reações físicas inesperadas. Exige um ator inteligente, que não automatize o texto e os gestos, mas possa criar continuamente um significado cênico à fala nômade do personagem. João Miguel _eis um ator inteligente_ consegue fazê-lo com muito sucesso. Vale a pena ler a entrevista que ele deu ao jornalista Fernando Masini na revista eletrônica “Trópico".
RITA LOCA
Estou curioso para ver o novo espetáculo musical da atriz-cantora Miranda Kassin, “Rita Loca”, com músicas de Rita Lee.
Nos últimos meses, ela apresentou no Studio SP, na rua Augusta, uma versão deliciosa de Amy Winehouse, sempre com casa lotada. Como é boa atriz, além de boa cantora, Miranda consegue transformar essas suas recriações em um espetáculo divertidíssimo, quase uma brincadeira, mas feita com talento e com muito cuidado (ela vem ensaiando a sua Rita Lee há meses). Como será o figurino?
A estréia é hoje, terça-feira, dia 12, no Studio SP (r. Augusta, 591, às 22h30, entrada gratuita).

Escrito por Alcino Leite Neto às 12h18
ESQUENTE A ENQUETE
Site vai, site vem, caí num blog que faz parte da seção "Especiais" do programa "Fantástico", da Globo.
O blog em questão é o braço na web de um novo quadro do "Fantástico" chamado "Vem Com Tudo", que deve ir ao ar a partir de junho e que será apresentado por Regina Casé.
O programa, usando o blog como ferramenta de pesquisa, funcionará como uma espécie de "caçador de tendências" interativo, no qual o público ajudaria a apresentadora a definir as novas tendências de comportamento do mercado. Os internautas/telespectadores são convocados a enviar vídeos com suas "apostas", ideias e opiniões, alimentando o banco de dados.
Um dos posts do blog fala do Zeitgeist, site do Google que mostra o que é tendência na web tendo como base os termos mais pesquisados pelos usuários do próprio Google_ proposta análoga à do programa.
Um trecho do post citado acima: "Cultura inútil? Que nada, tendência (o espírito do tempo) é dinheiro… Como diz o Google anunciando seu serviço Insights for Search (disponível dentro do Google Zeitgeist): “Capitalize em cima das têndencias, antes que elas virem tendência”!".
Outro post do blog decreta: "Tendência é gostar de moda". E diz ainda: "[a moda] era assunto que interessava a uma minoria 'antenada', hoje é assunto querido do 'povão'".
Como dizia um professor meu: dúvidas? ideias? palmas? lágrimas?
Vejam o blog do "Vem com Tudo" aqui.
GH diz: "Phänomenologie des Geistes"!
Escrito por Vivian às 19h51
CASO Nº 2 - A GRIPE DO MONOGRAMA
Outro caso exemplar de crítica fagocitada + solução mentirosa é a famosa onda dos monogramas/logomarcas.
No final dos 90 e início desses nossos promissores anos 2000
, rolou o auge da então chamada logomania. Estamparia exagerada, aplicações gigantes, ferragens, pingentes_ as logomarcas das grifes ditas “sofisticadas” estavam por toda parte. As bolsas da Louis Vuitton foram destaque desta onda, sucesso de vendas.
Pois bem. Muita gente criticou, e as reclamações principais eram as seguintes: 1- as pessoas estão idolatrando grifes. 2- há um excesso de ostentação.
O lance é que chegou um ponto em que todo mundo tinha uma dessas peças monogramadas até não dar mais. Originais ou não.
Pausa para um dedinho de memória - Não se esqueçam que essa fase "coincidiu"(ah, essas coincidências...) com o crescimento vertiginoso da indústria de pirataria fashion. Aliás, mais pra frente, farei um post sobre o quanto a discussão sobre pirataria, inclusive na moda, é pautada por argumentos que oscilam entre mentirosos, falaciosos e hipócritas.
Bem, quando todo mundo cansou de vender as peças-monograma, os fashionistas (eu tenho pavor dessa palavra, sabiam?) declararam que a febre da logomarca era, a partir daquele momento, cafona; estava morta e enterrada. Seguiram-se discursos em revistas e jornais nos quais corneteiros da moda em geral derramavam demagogias sobre o “excesso” de ostentação (será que existe uma medida certa de ostentação? Quantas xícaras?), aquele papinho furado, enquanto nas passarelas e na mídia especializada rolava a velha "plástica" superficial.
As logomarcas exageradas quase sumiram de circulação. As grifes optaram por colocar seus valiosos nomes de forma discreta, às vezes só na etiqueta interna da roupa. Estampa de monograma/logo, nem pensar.
E o porquinho gripado e confuso pergunta: Bom, espera aí. Só porque a roupa/acessório não está estampado com a logomarca, ou seja, só porque o nome da marca transformado em imagem não está “à vista”, quer dizer que o apego à grife acabou?
Gripe do monograma? - Porco Vuitton "monogramado"
pelo artista belga Wim Delvoye
Não meixxxmo, preibói. A logomania, de lá para cá, só fez aumentar.
Para aqueles que desejam (ou foram convencidos de que desejam) estar incluídos no sistema de valores simbólicos pervertidos adotado pelo mercado fashion (que faz parte de um sistema maior), as marcas não são, ainda hoje, mais importantes do que nunca? Não são selos de “qualidade [pseudo]cultural” colados ao corpo? Não são, grosso modo, passaportes, carimbos, índices de pertencimento a certa “sociedade dos escolhidos”? As grifes por si só não continuam sendo objeto de desejo, mesmo e muitas vezes em detrimento do produto que oferecem (não é segredo que, ao contrário do que diz a cantilena-clichê de vendedor, muitas grifes de prestígio internacional vendem mercadoria de baixa qualidade)? Não é uma crítica a essa ou àquela grife, vejam bem; isso nos levaria a lugar nenhum.
Ou seja, mais do que o produto X ou Y ou a marca W ou Z, a própria grife como conceito (e os valores virtuais que ela promete e nunca entrega em definitivo) era o foco. Aquela foi uma fase de divulgação em massa (certas marcas tiveram seus nomes/logos ligados ao conceito de grife, via produtos/mídia/celebridades). Depois foi só dar uma abafada, trocar por uma interface menos espalhafatosa, porque o culto ao conceito grife já estava estabelecido. E agora os papagaios lançaram aquela lorota de valor intrínseco que já comentamos, o que vale é a qualidade blablabla ZZZZZZZ Cataram? Gira, gira, mas não sai do lugar...
Escrito por Vivian às 00h17
A GRIPE DO MONOGRAMA - PARTE 2
Preservação dos recursos naturais x “ moda ecofriendly”; eurocentrismo fashion x rebaixamento da África e da Ásia a produto exótico de exportação; consumismo x “nova [falsa] modéstia”; inclusão social x ONGs truqueiras produtoras de mão-de-obra barata, a lista de exemplos de como as insatisfações são falsamente solucionadas nos termos do mercado é interminável.
As falsas soluções são apresentadas como produto “visíveis”. Ou seja, dada a exposição em todos os veículos de comunicação, parece sempre que “alguma coisa está sendo feita”, que o assunto “está sendo resolvido”. E esse tipo de ilusão tem implicações horrorosas, entre elas, a entorpecente ilusão de que vivemos numa sociedade onde há total liberdade de ideias.
O comportamento de um indivíduo, inclusive seus hábitos de consumo, são sempre influenciados de alguma maneira, de forma que é mesmo impossível (e mesmo indesejável) viver segundo o próprio “querer”. Até porque, como diz o filósofo, “querer é um verbo débil”.
Mas o que eu tenho insistido em destacar aqui é a importância imensa de sabermos quem e o quê nos influencia. E como, por meio de que argumentos, encantos, estratagemas, embustes e, na melhor das hipóteses, boas ideias, nos influenciam. É preciso investigar como os nossos desejos se formam, perceber quais são (e são muitos) os condicionamentos mentais aos quais estamos expostos. Será que temos liberdade ou passamos a vida fazendo escolhas dentro de um sistema restrito de possibilidades, infinitamente discutindo miudezas, particularidades, sem nunca tocar num ponto universal, sem nunca poder cogitar como seriam as coisas se um outro sistema pudesse ser considerado?
É bom que um indivíduo saiba analisar notícias, é bom que saiba identificar tentativas de enganação. É bom que note, como disse o dramaturgo Augusto Boal, quando um desejo artificial for “enxertado em seu peito”.
É legal ficar esperto com certos lugares de poder: a posição da "rainha" fashionista, do estilista diva, da celebridade, da estrela de TV, da socialite moderninha, do intelectual acadêmico intocável, do especialista sabe-tudo, entre muitos outros. Desmistificar esses poderes é coisa que qualquer um pode fazer. Como? Pensando. Lendo o que tantos já se deram ao trabalho de colocar em livros, conversando. Entenda como certas posições no mundo são cercadas de uma aura de “superioridade” que não é real e note como essa aura cai por terra feito um truque do Mister M quando você pára de acreditar nela.
Nem tudo que reluz é ouro. Fool´s gold, rapá, ouro de tolo.

O logo?
Não, mano, o Logos...
Escrito por Vivian às 00h16
PAUSA ESTRATÉGICA
Gents, só farei o post 2 amanhã. Enquanto isso, um vídeo de uma das melhores bandas de todos os tempos. O que tem a ver com moda? Ué, é o revival dos anos 90...
"Mirror, mirror on the wall, Who is the fairest fair of all?" escuta:
"I´m standing alone
You're weighing the gold
I'm watching you sinking
Fool's gold"
Escrito por Vivian às 20h10
CASO Nº 1 - A TENDÊNCIA
Como prometido, vou dar dois grandes exemplos ligados à moda para ilustrar o sistema que une padrão e crítica no mesmo angu.
Para começar, vamos dar uma olhada em um terreno bem manjado por todos aqueles que trabalham ou que de alguma forma se interessam por moda: a tendência.
A tendência é um exemplo muito claro de como o mercado de consumo regido pela atual estrutura do capital _especialmente em áreas dominadas pelo “fetiche cultural”, como a moda_ se retroalimenta das críticas dirigidas a ele.
O esquema da tendência trabalha de extremo a extremo. Exemplo: as maxibolsas estouram com tudo. A febre dura algumas temporadas, para que as grifes possam aproveitar ao máximo a “alta” do acessório. Aos poucos, a mídia de moda começa a reclamar da repetição, “ai, maxibolsa outra vez, super ano passado, faz mal à coluna, já vimos isso, queremos novidade”. A maxibolsa vira “out”. A tendência seguinte passa a ser a microbolsa! E as mulheres que gastaram os tubos com a maxibolsa ficam com o mico no armário (esperando quem sabe um revival) e vão às compras atrás da microbolsa.
A lógica se repete. Se a moda está “muito romântica”, voltam o dark e o militar. Se está muito rebuscada, retorna o minimalismo. Se está muito hippie 70, hora de recorrer ao artificialismo dos 80. A modelagem está muito justa? Voltam os amplos. A skinny é só para magrelas? Voltam baggy/boyfriend/cenoura etc. Muita cor? Retorno do preto. E assim vai. É claro que há os elementos de desfile, o fascínio teatral da peça-“conceito”, porém, a realidade das lojas é previsível ao extremo.
Mas sabem qual foi o grande truque do mercado fashion nos últimos tempos? Declarar o fim da tendência! A reclamação cada vez mais repetida de que esse “mandamento” (a tendência vista como um padrão que, apesar de mutante, deve sempre ser seguido como preço para “estar na moda”) era uma afronta à liberdade de escolha foi fagocitada pelo mercado.
Sai a tendência focada, entra o mercado preparado para atender a todas as demandas de todos os “estilos”. É claro que dá no mesmo, no sentido de que “para estar na moda” é preciso seguir uma série de regras disseminadas pela mídia (e pelos “players” cheios de grana que a sustentam, incluindo os grandes conglomerados de moda). Mas existe uma mudança aí, que, na minha análise, é muito importante.
O consumidor, de certa forma, passa ter a ilusão de que é ele quem manda, de que é ele quem faz as escolhas. “Tendência uma ova, eu faço o meu estilo”. Mas esse estilo surge assim do nada? A percepção do que é “cool”, do que é “hype”, do que é “chic” e até do que é “estilo” não continua a ser ditada pela mesma mídia, pela mesma indústria das divas do cinema, pelas musas da indústria musical, pelos ídolos criados pela TV, pelo culto ao poder financeiro?
O controle não é muito mas muuuuuito mais efetivo e bem aceito quando se disfarça de liberdade, de tolerância e de democracia? Esse esquema não proporciona um condicionamento muito eficaz da insatisfação humana, não sobrecarrega a vida cotidiana de pequenas demandas seguidas de recompensas momentâneas? E vem cá, tem como sair dessa sinuca de bico? Ih, ferrou tudo, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come (será mesmo?)... E agora, José? Três notas, maestro Zezinho: qual é a música?

GH diz: Como assim, a crítica rende mai$$$?
Barba tira uma: Eu avisei pra não colar chiclete na cruz...
Segunda tem o segundo exemplo e mais uma salada de perguntas indigestas. Confundir até o talo e segurar a ação são as sugestões do cardápio de hoje. Por enquanto, passo a bola pra vocês, minhas/meus colegas de trabalho, má, oiiiiiiiii.
Escrito por Vivian às 18h09


