CINEMA E FIGURINO
Por que escolhemos esses realizadores e não outros? Por uma razão simples: para eles, nos filmes que iremos examinar, as roupas têm um papel importante no conjunto da expressão estética e intelectual das obras. Elas não são apenas adereços para compor os personagens, e não servem simplesmente para dotar de beleza ou verossimilhança as narrativas.
Por que em "Ivan o Terrível", de Eisenstein, os boiardos vestem casacos de ombros largos? Por que Marnie, no filme de Hitchcock, dá de presente à mãe uma estola de pele? Por que Yoná Magalhães usa um véu negro em "Deus e o Diabo na Terra do Sol", de Glauber? Qual é a relação entre os capacetes dos astronautas de "2001" e as máscaras de "Laranja Mecânica", de Kubrick?
A crítica cinematográfica raramente analisa a função dos figurinos nos filmes, entregando o comentário sobre as roupas a especialistas em moda, que se atêm muito mais aos aspectos técnicos de construção da vestimenta ou às suas referências históricas.
Nosso objetivo é tentar demonstrar que as roupas, nesses diretores, é tão importante quanto outros elementos do filme, como os diálogos ou os cenários. Iniciaremos com uma breve apresentação do diretor, seguida da análise de dois ou mais filmes, exibindo trechos deles no curso. Na parte brasileira (Glauber), decidimos incluir uma análise das roupas nos filmes de Mazzaropi, como complemento e contraponto.
Outras pessoas, que já se inscreveram, me perguntam que filmes precisam ver antes. Para simplificar, aconselhamos ver os seguintes filmes, se possível e se já não viram:
De Eisenstein: "Outubro" e "Ivan o Terrível"
De Hitchcock: "Janela Indiscreta", "Intriga Internacional", "Um Corpo Que Cai", "Psicose" e "Os Pássaros"
De Glauber: "Deus e o Diabo na Terra do Sol" e "O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro"
De Kubrick: "2001", "Laranja Mecânica", "Barry Lyndon" e "De Olhos Bem Fechados"
A seguir, transcrevo a apresentação do curso, tal como está publicada no site da Casa do Saber:
Este curso aborda o significado do figurino no cinema de quatro grandes diretores: Serguei Eisenstein, Alfred Hitchcock, Glauber Rocha e Stanley Kubrick. Mais do que se concentrar nos trabalho dos figurinistas dos filmes, o curso pretende mostrar como as roupas têm uma importante função na linguagem cinematográfica desses diretores e participam da produção de significado dos filmes. Cada aula terá também uma introdução geral à obra do diretor, bem como uma apresentação do entorno histórico. Os alunos serão aconselhados a assistir ao menos um filme de cada diretor, antes da aula. Durante a aula, será mostrada uma seleção de trechos.
29 JUN | 1. Eisenstein e a roupa nos filmes das vanguardas do início do século 20
30 JUN | 2. Hitchcock e a função do figurino no cinema clássico hollywoodiano
02 JUL | 3. Glauber e o figurino nacional-popular e tropicalista do Cinema Novo
03 JUL | 4. Kubrick: o figurino futurista de “2001”, o figurino punk-apocalíptico de “Laranja Mecânica”; figurino histórico de “Barry Lyndon”; figurino-fantasia de “De Olhos Bem Fechados”
Escrito por Alcino Leite Neto às 12h59
THE FLASHES - SPFW 5 - ESCUTAÍ, RAPA
Dois momentos da trilha da Cavalera. Pra quebrar geral.
Escrito por Vivian às 19h25
THE FLASHES - SPFW 4 OU JÁ OUVIU
FALAR DE LOOPING?
- Algumas pessoas comentaram aqui que a ótima coleção de Herchcovitch seria uma cópia remix das duas últimas temporadas da Dolce & Gabbana. Esse assunto de cópia é um saco, digo logo na lata, mas vamos lá:
1. Sim, a Dolce & Gabbana, assim como a Balenciaga, estão entre as grifes mais influentes das últimas décadas.Não só por questões criativas mas também por questões comerciais,pencas e montanhas de dindim em jogo, certo? Portanto, é muito natural que elementos de estilo que aparecem nas coleções dessas marcas sejam relidos por designers do mundo inteiro, inclusive nas próprias semanas de moda de Paris e Milão. Alcino, que acompanha a temporada na gringa, já escreveu sobre isso.
2. Ombreiras: gente, as ombreiras vêm, no mínimo, lá dos anos 80. As reedições foram inúmeras,incontáveis. Pequenas, grandes, redondas, estilo Mickey, quadradas, gigantes, vem que tem. Então o Herchs copiou a Dolce, que copiou o Margiela, que copiou a Balenciaga, que copiou os Cavaleiros do Zodíaco, que copiaram as armaduras medievais...Tipo as popozudas, as preparadas e o baile todo.
3. Não existe originalidade absoluta na moda. Dona Regina Guerreiro, que viveu as últimas décadas vendo os maiores desfiles de Paris e Milão, disse o seguinte ontem, numa entrevista na TV: "A moda está presa numa série de reedições de décadas. Voltamos aos 80, aos 70, aos 20... Eu ainda não sei como será a mulher 2000". Ou seja, se a moda como sistema se retroalimenta de seu próprio passado recente, fica difícil dizer (salvo raras exceções) Fulano foi o primeiro a usar isso. Ou seja, a repetição e a reedição estão nas bases de funcionamento, nos fundamentos da moda.
4.Dados esses elementos recorrentes, é natural que diversos estilistas façam releituras dos mesmos itens. Isso pode ocorrer entre gaps longos ou no mesmo período porque, vale a pena lembrar, TODOS os estilistas das grandes semanas de moda estão inseridos num contexto comercial que trabalha sim com tendências. A interpretação desses elementos, no entanto, pode ter resultados dos mais diversos.
5. Cópia é algo literal. Talvez não idêntico, mas literal. Já vimos muito disso acontecer nas passarelas, mas a definição não se aplica à coleção de Herchcovitch. A diferença brutal na escolha dos materiais, no conjunto dos shapes, a introdução do esportivo (no lugar do luxo tipo nobreza "decadence" da Dolce),o resultado imagético, a interpretação do sexy, enfim beeeeibes, a lista é grande.
Sem essa de pé-de-breque, camaradas.
Escrito por Vivian às 21h26
THE FLASHES - SPFW 3
Ontem não deu tempo de comentar nada, mas, gents, que vergonha. Bruno Gagliasso quase foi violentado por uma turba de repórteres, fotógrafos e úteros em fúria antes do desfile da Triton. As frases soft-porn que só o vento registrou é melhor nem repetir.
Se Jesus Cristo resolvesse nos dar a honra de seu retorno durante eventos de moda com presença de atores globais da novela das 20h, provavelmente seria ignorado por 99,9% dos seres humanos presentes. Queima tudo, JC!!!
Escrito por Vivian às 16h30
THE FLASHES - SPFW 2
Vai, Alexandre Herchcovitch, passa batido pela defesa, mostra pro Tom Brady com quantos metros de cetim duchese e látex se faz um touchdown.
PS: Desculpem a falta de assunto, mas hoje estamos totalmente hipnotizados por esse desfile.
Escrito por Vivian às 23h15
THE FLASHES - SPFW 1
Novidade teológica do dia: Jesus (Luz!) é baixinho e tem peitolas de menina-moça. Dá um Valisére pra ele, Paulo Borges!
Luciana Gimenez, Maitê Proença, Carolina Dieckmann,os meninos do CQC, tinha diummtudo no desfile da Colcci. Sentimos falta, no entanto, do Faustão, da Maysa e do macaco pintor da novela das 19h. Para compensar, ficamos observando as gurias do Amaury Jr., duas prendas gaúchas que oferecem chimarrão às celebridades. Não é uma maravilha?
É insuportável o número de câmeras fotográficas por metro quadrado dentro da Bienal. Gloria Kalil, que é uma lady, sempre muito fina e simpática, foi abordada até dentro do banheiro para tirar retratos com fãs afoitas. Mamãe precisa dar educação.
Felicidade de operário padrão da moda: trocaram os canapés de gosminha e as trouxinhas de pasta de alface da sala de imprensa por brigadeiros e bolo de chocolate!! Aleluia, Senhor. Parece bobagem, mas uma humilde coxinha custa 5 pilas aqui nos bares da Bienal, tá? Então, fia, dá-lhe, brigadeiro.
Escrito por Vivian às 23h27
EXISTE MODA BRASILEIRA?
Queria muito ter ido à palestra de Didier Grumbach, ontem, na Livraria Cultura, antes do lançamento de seu livro "Histórias da Moda" (ed. Cosac Naify). As tarefas acumuladas antes do início da SPFW me impediram.
Grumbach é presidente da Federação Francesa de Costura, do Prêt-à-Porter, dos Costureiros e dos Criadores de Moda. Ou seja, é o homem que controla a parte institucional da moda na França, país, onde, sabemos, a moda é uma preocupação de Estado. Além disso, Grumbach é um sujeito inteligente, erudito e bem informado. Seu livro lançado agora no Brasil é importante e de leitura obrigatória.
Gloria Kalil reporta momentos da palestra em seu site, o "Chic". Há coisas muito interessantes, entre elas a declaração de que "para ele não existe moda brasileira, nem francesa, nem nunca vai haver uma moda chinesa", escreve Gloria em seu provocante artigo. E, nas palavras do próprio Grumbach: "A moda é globalizada. É a única indústria que põe suas novidades na internet no mesmo momento em que elas são criadas. Não dá para se pensar numa moda local".
Certamente a moda, como linguagem, é hoje algo internacional. Tristes são os que ficarem mirando apenas as imagens de seus quintais. Como indústria, porém, a moda ainda tem essencialmente bases nacionais, em toda parte, e por isso mesmo os governos francês e italiano se preocupam tanto com as suas indústrias de moda, e as protegem com cuidado, pelo tanto que geram de riqueza, emprego e prestígio.
Eu diria que existe, sim, uma moda brasileira, porque já existe uma indústria de moda no país.
A moda não é apenas superestrutura, produção de imagem, linguagem e estilo cultural. Ela também diz respeito à infraestrutura econômica, à exploração de matérias-primas, à produção de bens de consumo, às relações entre trabalho e capital... Considerada assim, ela é (com os têxteis) uma das principais indústrias do Brasil, a segunda maior empregadora do país, inclusive. A originalidade do design brasileiro deverá ser uma consequência do desenvolvimento industrial e comercial _não a causa.
Além disso, o mercado interno brasileiro de moda, tanto o real quanto o potencial, é um dos maiores do mundo _e hoje consome majoritariamente, em quase 100%, a "moda brasileira", seja esta a que idealizamos ou não. Frequentemente associamos a moda do país à elite das fashion weeks, desconsiderando o imenso e efetivo consumo popular, que só cresce, à sua maneira. Isso, sem falar, na indústria nacional de produtos de beleza.
Neste momento em que a crise econômica está debilitando muito os mercados tradicionais das grandes grifes internacionais, é bom ter isso em mente. Essas grifes _essas indústrias_ precisam de grandes mercados para sobreviver. É certo que elas já estão olhando o Brasil com a gula de um Pantagruel.
Escrito por Alcino Leite Neto às 18h12
OBSERVAÇÂO SOBRE O FASHION RIO E A MODA MASCULINA
O Fashion Rio vinha apresentando um repertório crescentemente rico de moda masculina, como já tivemos oportunidade de ressaltar, Vivian Whiteman e eu. A considerar, porém, os desfiles que exibiram roupas para homens na última edição, exceto por um look ou outro da Redley e da TNG, parece que só existem consumidores adolescentes no país. A falta de grifes que estejam realmente dispostas a criar moda para homens, e não para teenagers, se revelou agora uma das principais carências do Fashion Rio.
Existe ainda no meio da moda brasileira _inclusive entre a crítica_ uma grande ojeriza com a imagem do homem maduro (e falo daquele de 30 anos ou mais), que é associada à caretice e à velhice. Tem gente na plateia dos desfiles que parece ter ânsias de vômito diante da exibição de um terno bem talhado, se este não for na cor laranja e com bordados de toy-art. Com medo de parecerem antiquadas, as marcas que criam para homens traçam um raciocínio simplista, que consiste em associar a moda masculina à roupa para garotos.
O fato de os homens serem menos ousados que as mulheres nas escolhas de seus looks não implica que não haja nada a acrescentar ao design masculino de roupas. Fosse assim, não haveria uma semana de moda masculina em Milão, seguida de outra em Paris. Mirassem apenas os adolescentes, as grandes grifes internacionais voltadas para homens (ou também para homens) quebrariam em dois tempos. Se isso ocorre no Brasil, é porque têm sido poucas as tentativas, por parte das grifes com efetivo interesse no design, de reformar a imagem masculina madura. Elas praticamente entregaram às marcas de perfil conservador a tarefa de engendrar o look dos homens no país, desprezando um imenso mercado e a possibilidade de introduzir aos poucos novidades a esse público tão desconfiado da moda. E por que os homens desconfiam da moda? Porque são raras as grifes empenhadas em exibir nas passarelas _sem sensacionalismos e sem propor a eles que cruzem a fronteira dos gêneros sexuais_ novas opções de imagens e roupas para o trabalho, as festas e o lazer. Para esses homens, os desfiles não passam de coisas para mulheres ou gays. A distância que eles criam da moda _e a moda deles_ promove o que se vê nas ruas brasileiras, particularmente no inverno: os ternos mal feitos, os casacos desengonçados, os jeans em profusão e as camisetas hegemônicas, vorazes, que devoram toda pretenção do estilista ao design e à criação. Sem falar na numerosa quantidade de "homens feitos" que se vestem como rapazinhos indo para o colégio. Se há um longo caminho para o design de roupas femininas se firmar no Brasil, no campo da moda masculina esse percurso é longuíssimo.
Escrito por Alcino Leite Neto às 14h21
THE FLASHES
Falaê, gente, maior friozão!
O Rio já rolou, agora é SPFW. Algumas notitas pra aquecer, e prometo tentar postar pelo menos um flash diário, sempre no final do dia, blz?
- A top Nathalie Edenburg quebrou tudo no Rio. Ela está linda, curvilínea, rosto corado, uma beleza. Aliás, Ana Michels e Isabeli também mostraram como um corpo de mulher saudável _ao contrário da lenda do cabide ambulante_ é capaz de levantar passarelas
- Os Fratelli Borges pegaram firme na organização; bastava Graça Borges apontar ao longe para as assessoras correrem, as filas andarem e o povo sentar rapidinho em seus devidos lugares
- Os guindastes alemães do Píer Mauá ganharam o (meu) prêmio de melhor design da temporada
- As trilhas sonoras estavam bem fraquinhas, uma chatice. A música é muito importante para o desfile, e certas escolhas (muito) ruins criam até uma certa antipatia pela roupa... Troca o disco, gente!
Para encerrar, uma homenagem às conexões fashion do Ano da França no Brasil. Salut!
YSL diz: Vestido de noiva Matrioshka russa, 1965

Gainsbourg dedica a France: Vestido camisinha-pirulito, 1966
http://www.youtube.com/watch?v=6q_srJGOkFE (Vejam o clipe de "Les Sucettes", vale a pena)
Et lorsque le sucre d'orge
Parfumé à l'anis
Coule dans la gorge d'Annie
Elle est au paradis!
Escrito por Vivian às 17h57
RAP DE ESTILO
Nos anos 80, existia um programa de auditório chamado Barros de Alencar, que ia ao ar pela TV Record. Foi neste programa que, ainda criança, eu descobri o que era break. A cultura hip-hop _ com o break o rap e os b-boys_ estava ganhando força, sobretudo em São Paulo, e esse era um dos programas televisivos que promoviam campeonatos de dança nessa linha. Além dos dançarinos, um dos destaques do programa era o grupo Black Juniors_ quatro irmãos, na linha Jackson Five, produzidos pelo famoso Mister Sam, um argentino com fama de truqueiro que lançava coletâneas de hits. O grupo arrasava com o sucesso “Mas que Linda Estás”, uma música com base do The Roots e letra na pegada do charme, falando de um garoto que vai aprender a dançar para conquistar a menina e aparecer na TV. Pena que durou pouco. Abafados pela onda mauricinha da new wave, os moleques, que chegaram a ganhar disco de ouro e platina, foram chutados para escanteio. Três deles foram assassinados anos mais tarde na periferia de São Paulo. Faz um tempo ouvi essa música de novo, como BG do programa Espaço Rap, que vai ao ar pela 105 FM. O programa, que é ótimo, tem duas versões e vai ao ar todos os dias da semana (confira a programação completa aqui). Eu costumo ouvir aos sábados e aos domingos, dias em que o simpático Fábio Rogério apresenta o programa. O Espaço Rap toca sobretudo rap nacional e atende ao vivo os pedidos dos ouvintes. Sempre gostei de rap e não é segredo aqui que sou grande fã de Racionais_ ganhei uma fita com “Fim de Semana no Parque” quando tinha uns 15 anos e fiquei impressionada. Foi quando comecei a ouvir De la Soul, 2Pac, Snoop e Cypress Hill e a me inteirar da coisa toda. Em 1998, rolou o lançamento do genial “Sobrevivendo no Inferno” (não custa lembrar que naquele momento Mano Brown, KL Jay, Edy Rock e Ice Blue levaram o prêmio “Escolha da Audiência” da MTV...), que dispensa comentários. Nesta época, fui atrás dos clássicos da tríade rap/funk/soul e entendi um pouco melhor de onde vinha tudo aquilo (aliás, 2009 marca os 50 anos da Motown). Lembro de ir ao Carandiru, obviamente quando o complexo ainda existia, para uma entrevista com o Detentos do Rap. Depois conheci o 509-E, que também surgiu no Carandiru e que escuto bastante até hoje. O programa “Manos e Minas” da TV Cultura (ainda na fase Rappin Hood), aliás, fez uma ótima entrevista com o Dexter, o talentoso frontman do 509-E (veja aqui). Em 2003, mataram o Sabotage. Hoje em dia é difícil ler matérias de rap nacional na mídia impressa _ vale a pena ver a coluna “Da Rua”, que o repórter André Caramante, da Folha, escreve todos os domingos na revista “Da Hora”, do Agora São Paulo. Na TV, quase não se fala disso (“Manos e Minas”e algumas coisas na MTV), apesar do grande espaço dado ao rap norte-americano_ que, é claro, também tem ótimos representantes. Em termos de espaço dedicado ao rap, o rádio oferece boas opções (assim como alguns sites da web). A 105 FM, em especial, dedica boa parte da programação ao rap, além de outros gêneros do vasto campo batizado de black music, fora o samba e o pagode. Ouvindo Espaço Rap na 105 descobri grupos de diversas vertentes como Trilha Sonora do Gueto, Realidade Cruel e O Complô, só para citar os que estão entre os mais pedidos pelos ouvintes. Fora aquele prazer do rádio, de ouvir o pedido de um cara que está trabalhando lá em Itapecerica, do outro que foi visitar a namorada em Taipas, a garota que oferece uma música para o marido ou para o irmão que está preso, ouvir gente de outros jardins_ aqueles com nome de mulher, aqueles que muita gente nunca visitou nem faz questão de saber onde ficam.
No final do domingo, na minha casa é de lei ouvir Balanço Rap, na mesma rádio. Os apresentadores são Paulo Brown e os Racionais Ice Blue (que faz umas pensatas freestyle muito divertidas) e KL Jay. Clássicos, novidades e maravilhas, coisa fina. No último domingo rolou de Banda Black Rio à incrível “Ain´t Nobody”, da Chaka Khan. Imperdível.
Todo mundo que trabalha com moda sabe da extensa influência do hip-hop no streetwear. No entanto, pouquíssima gente se interessa em saber como foi que esses elementos de estilo foram desenvolvidos. Para os criadores brasileiros, seria bom, por exemplo, saber o que os grupos de rap do Brasil têm a dizer. Como é o cotidiano dos grupos que nascem nas periferias, quem são essas pessoas, qual é a história delas, quais os assuntos abordados nas letras, quais são os conflitos. A maioria não quer nem saber como é que a influência da moda dos rappers gringos (tão copiada) é digerida por aqui, como é que o desejo por um determinado look entra em confronto com a falta de grana e como isso gera tanto problemas graves quanto adaptações muito criativas. Enfim, deixam de lado os aspectos sociais, culturais e até políticos e se contentam em repetir os clichês de sempre.
Depois do turbilhão de desfiles, vou fazer aqui um post mais detalhado, falando das muitas citações sobre roupas e grifes que aparecem nas letras de rap e, o que é mais importante, como e em que contexto elas aparecem.
Ignorar a força e a importância da periferia é sinal de estupidez, de egoísmo e de cegueira, para dizer o mínimo. Reduzi-la ao chavão moletom-boné-corrente versão Oscar Freire é lamentável. Procurar novos modos de entendê-la é necessário.
Quem corre atrás do hype, da "novidade publicitária", está sempre comendo poeira, então é bom ficar ligado no que está rolando na realidade. Enfim, continua valendo aquela antiga, aquela bíblica: “quem tiver ouvidos, ouça”.
É booooooom ouvir:
Rosana Bronks
http://www.youtube.com/watch?v=ebfPwqvUIt4
Racionais + Black Rio
http://www.youtube.com/watch?v=qPjrqGbC5Zg
U-Time
http://www.youtube.com/watch?v=sTwY0L13dM8
Trilha Sonora do Gueto
http://www.youtube.com/watch?v=P5Rsm63JIFo
Facção Central
http://www.youtube.com/watch?v=Jr6_pQm1n-U
MV Bill e Kmilla
http://www.youtube.com/watch?v=ahF4TdpWA1k
Sabotage
http://www.youtube.com/watch?v=MBp4GxPjCBU
Escrito por Vivian às 18h12


