Vivian Whiteman

Última Moda

 

E HOJE NO "DISNEY CHANEL" - A PEQUENA SEREIA

Fis,

Comecei a escrever sobre a tia Miuccia e o lance virou giga. Ia pegar só o último desfile mas acabei achando que faria mais sentido usar os três últimos, por conta de uma certa sequência lógica.

É sábado, tá chovendo, mas fica um petisco Ariel-Chanel enquanto a Prada não vem, só pra descontrair.

Té segunda

Besos, VW

 

 

Acima, bonecas e imagem da sereia Ariel (de "A Pequena Sereia"), que faz parte da série princesas Disney. Looks e bolsas-concha Chanel e a "sereia-rocker" ruiva Florence Welch, do Florence and the Machine, que cantou ao vivo no desfile da Chanel e é um dos novos rostos da marca.

Você sabia?

- No conto original, de Hans Christian Andersen, a sereiazinha não consegue o amor do príncipe, que se apaixona e se casa com outra. Para não voltar pro mar e virar espuma, ela tem a opção de matar o príncipe e voltar a ser sereia. Mas ela não dá conta e prefere morrer. Porém, por sua boa índole, acaba se transformando num espírito do ar. Qual a vantagem? Bem, quando ela troca a voz por um corpo de mulher com a feiticeira, quer, além do príncipe, ganhar uma alma humana, que considera imortal. No conto do Andersen, ela ganha dos deuses a opção de praticar boas ações por 300 anos, na forma de espírito do ar. Se conseguir, ganha a alma imortal. Já no filme da Disney, Ariel casa com o príncipe e tudo dá certo! Tipo, que Fausto que nada, pode fazer treta com a galera do horror que rola tudo bem. Como diz o Criolo, "quando alguém te oferecer o caminho mais curto, fique atento!".  

Escrito por Vivian às 22h14

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Kate convidou? – Ou as egípcias não usam saia-lápis

Faz uns dez dias, Kate Middleton foi à Topshop. Assim, tipo, fazer umas compras. Sem falar pra ninguém (hmmm, será?), escolheu peças, entrou no provador e comprou coisas. É claro que as pessoas viram e em dias as peças escolhidas por ela esgotaram. Marketing de moda é isso, né, Brasil?

 

Bem, uma das compras da moça foi uma saia-lápis verde com bolinhas pretas (lembram da coleção passada do Marc Jacobs?). A outra foi uma jaquetinha de tailleur azul. E um brinco (dizem que ela dispensou um brinco fuleiro antes de chegar ao caixa, deve ter pensado, alôôô, uso safiras e diamantes do tamanho dos meus dentes da frente). O tailleur é uma obviedade burga.  Por isso, nessa quase-trinca de compras, a chave é a saia-lápis.

 

A saia-lápis, para o leitor não muito chegado nas fashionices (vc é muito bem-vindo nesse blog), é aquela que chega na área dos joelhos (tem umas que ficam um pouco acima, outras um pouco abaixo) e vai afinando de cima para baixo. Ou seja, quando chega nos joelhos, fica bem justinha e limita os movimentos.

 

É uma saia de escritório, de caminhadinhas miúdas, de fazer pose. É  bem bonita, eu até tenho duas. Mas servem pra momentos bem específicos. Dizem que é muito feminina porque obriga a mulher a andar devagar, com passos menores, já que a abertura limita as pernas. Vejam a visão de feminilidade reinante, afe!

 

Kate, assumindo o papel da princesa, compra a carapuça que lhe serve. Que seja na Topshop faz todo sentido: a rede de fast fashion é um gigante do mercado inglês, e em tempos de vacas magras na terra da rainha, a moda é tratada com honras reais, por se tratar de um dos poucos setores com empresas altamente lucrativas e saudáveis.

 

Além do  mais, a princesa que compra na Topshop passa a mensagem: “vejam, ela é como nós”. Ou ainda: “veja, vestir-se como ela sai barato, você também pode!”.  Kate é cultivada pelo marketing do governo inglês como uma espécie de Michelle Obama, embora os títulos das duas sejam diferentes. Uma espécie de RP, a imagem boa do governo, o rosto simpático da plebeia que "chegou lá".

 

A verdade é que se a linda princesinha fosse mesmo como o povão britânico, ela estaria usando um moletom de capuz como os jovens que protagonizaram uma onda de saques em Londres meses atrás.

 

É evidente que não se trata de endeusar os saqueadores. Os saques em si são indefensáveis, mas existe uma lógica neles. A lógica é a da Inglaterra desempregada, dos jovens de 20 anos que nunca conseguiram um emprego na vida mas nem por isso foram isolados da cultura de consumo. A lógica é a da legião de meninos bêbados (o alcoolismo é outra consequência, não causa) que circula pelo bairro periférico de Hackney enquanto turistas orientais saem carregados de sacolas do outlet da Burberry. A lógica é a de milhares de jovens cheios de energia que são ignorados pela Coroa e que não podem comprar, nem na Topshop.

 

 

A missão de um governo não é certamente garantir que seus governados comprem mais roupas, mas a importância da imagem/vestimenta no dia-a-dia das pessoas não pode ser ignorada. Até porque, como nos lembra a doce Kate, ela é construída com a ajuda desse mesmo governo que depois chama os saqueadores de arruaceiros “fúteis”.

 

Enquanto os capuzes foram proibidos em vários bares e em algumas escolas, a saia-lápis reina absoluta. Engraçado notar que a última coleção da Topshop foi inspirada no Egito!!!

 

Fazendo a egípcia ou não faça de sua camisa do Lênin uma saia-lápis

 

Engraçado também notar que o desfile da Topshop trazia a saia-lápis junto com os capuzes. Mas todo mundo sabe, minha gente, que na primavera egípicia _ a onda de protestos que mostrou um rosto libertário do bolão vulgarmente chamado de “mundo árabe e arredores” que muita gente tenta esconder_ não dá pra usar saia-lápis. Engraçado pensar que dá pra correr até de burca, mas de saia-lápis não rola. E se precisar dar um pique, tio?

 

 Fica a dica prática e simbólica do figurino de protesto.

 

O que nos leva à ocupação de Wall Street, o evento mais fashion do ano. Diz que as revistas e publicitários já estão imaginando campanhas usando esse “clima de protesto, clima de paquera”.

 

 “Don´t fall in love with yourself”, disse Zizek, filósofo-padroeiro deste blog, muito amor, máximo respeito. Lá no meio dos manifestantes, mais uma vez reiterando suas ideias, como um bom professor (pra ele eu até fazia a Deborah Secco e tatuava um amor eterno, amor verdadeiro) .

 

 Ele disse pra galera não se contentar em aproveitar o clima de euforia, tirar fotos, postar imagens com os amigos no Instagram, todo mundo bem trabalhado no filtro.

 

 “O que importa é o dia seguinte”, ele disse. Ou seja, ok, vocês estão aqui dizendo que não querem o capitalismo. Mas precisam começar a pensar no que vai substituir esse sistema. Em algum momento terão de voltar pra casa e pensar no que mudariam em suas rotinas pra que isso possa rolar. E ler e procurar saber sobre história, sobre leis, sobre psicanálise, sobre pessoas que abraçaram uma luta com unhas e dentes, entregando a própria vida como garantia. Não é lógica de sacrifício, é a lógica oposta, de vida, ou seja, é pensar "minha liberdade de viver segundo o que acredito depende disso". E agir politicamente dia após dia.  

 

 Não adianta botar sua camiseta do Lênin nem sua saia hippie e gritar “abaixo o capital, viva a revolução”. A revolução não será televisionada porque ela é silenciosa,  começa num momento em que só você sabe que uma ideia despertou na sua mente e no seu coração o sino da verdade. A verdade é forte demais, é como uma beleza inegável. E é capaz de tornar o impossível possível quando muitas pessoas se juntam por uma causa de todos para todos. É um tempo de mudanças de perspectiva, e Zizek alerta, não aceitem que isso seja diluído num pacifismo publicitário.

 

Usar sua camisa do Lênin como figurino de show não dá. Tipo, olha a vibe Woodstock que já já acaba. Participar de protestos pra se sentir bem, achar que estar lá é ter feito sua parte é muito saia-lápis. Limitado. Não existe fazer a sua parte num inteiro imaginário. Existe fazer o seu inteiro numa parte do mundo que é a sua vida.

 

Faz uns 15 dias, estava eu andando por Oxford Street, lá onde tem a Topshop da Kate. Os grandes suvenires do momento nas dezenas de de lojas turísticas que lotam essa rua são réplicas do anel de noivado de Kate, camisetas do casal real e...moletons de capuz. Realeza x working class, o clássico da luta de classes britânica.

 

E tem gente que ainda acha que analisar moda é coisinha fútil.

 

Cata quem alcança, fi, fica a dica.

 

Besos

Vivi

 

PS: E alguém perguntou: e a dona Miuccia? Vá tomar banho, jantar e ler esse texto do link abaixo que, de sobremesa, vai ter texto no blog.

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/opiniao/A+TINTA+VERMELHA+O+DISCURSO+DE+SLAVOJ+ZIZEK+NO+OCCUPY+WALL+STREET_1659.shtml

 

 

Imagens de protestos em Londres, em Wall Street e no Egito. Piadinha com um dos presos nos riots com chapeu usado pela princesa Beatrice no casamento real e a saia que Kate comprou na Topshop

 

 

 

Escrito por Vivian às 16h42

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Kate Middleton - ou pq o "princesismo” é a grande tendência do momento

 

Ela não inspirou diretamente nenhuma coleção nem assistiu a nenhum desfile da temporada de moda que terminou na semana passada. Ainda assim, foi a personagem mais influente da estação.

 

Kate Middleton, plebeia, duquesa, mas, sobretudo, princesa no imaginário social, tomou conta das passarelas como uma entidade oculta em uma série de tendências.

 

Mas não se trata apenas de impressões. Dois fatos bastante concretos abrem caminho para entender como a nova princesinha “Disney” encarnada está entrando de fininho no seu guarda-roupa.

 

Número 1 – o Global Language Monitor, que registra a popularidade de termos e pessoas na internet, realizou um estudo que apontou Londres como a capital mais fashion do mundo nesta temporada. Nem Nova York, nem Milão, nem Paris. Londres chegou ao topo graças ao interesse dos internautas por Kate Middleton e pela grife Alexander McQueen que, não por acaso, assinou o vestido de noiva da moça.

 

Número 2 – A McQueen foi eleita a grife de moda mais cool de 2011. Comandada por Sarah Burton depois da morte de Alexander McQueen, a marca alcançou um pico de popularidade por conta do casamento de William e Kate.

 

Daí para as tendências foi um pulo

 

Para verificar se uma especialista em trends poderia confirmar a minha tese, pedi para Whitney Kessler, editora-associada do núcleo de análise de marketing e tendências Stylesight para listar as principais influências da bonitona na temporada de desfiles internacionais, primavera/verão 2012:

 

 

- Ladylike, o estilo mulherzinha comportada

Vestidos com mangas, barras mais longas e um certo ar de recato

 

- Dona-de-casa chic, o recato é a lei

Silhuetas ampulheta, conjuntinhos estilo tailleur e variações

 

- Aguadinha

Os tons pastel e lavados, desbotados, bem discretos (imagine a “cartela de cores” dos macarons do filme “Maria Antonieta” de Sofia Coppola)

 

- Noivinha

Muitos deisgners refizeram o vestido de noiva em versões estilizadas ou editadas em peças separadas. Os trajes e chapéus das convidadas também foram referência.

 

- Make e cabelo solto

Segundo a analista, o make quase nude da discreta esposinha de William e o cabelo bagunçadamente arrumado estão "in" (kkkk)  

 

O que eu acrescentaria (tanto nas passarelas quanto o que acabou de chegar às lojas na Europa):

 

 

- A volta dos esportes “reais”

O universo do hipismo e do tênis, esportes de elite e ligados aos reis e rainhas contemporâneos apareceram muito. Não por mera coincidência, a Hermès e sua herança hípica voltaram com força total ao topo do mercado. A grife inclusive está organizando um torneio hípico em São Paulo

 

- Arrasta

Vestidos e saias com algum tipo de cauda  

 

- Retorno de cores e motivos ligados historicamente à realeza

Azul (o tom do vestido azul usado por Kate no anúncio do noivado,da grife Issa, apareceu em diversas coleções), dourado, vermelho e laranja, rosetas etc

 

 

- Tiaras de princesa/noiva

Como as da Vuitton e de Nina Ricci, nem precisa explicar, certo?

 

 

Dias antes do casamento, gravamos aqui na redação, para a TV Folha, um vídeo no qual eu dizia que o vestido de noiva de Kate seria a peça mais influente dos próximos anos. Não apenas o vestido em si, mas sua capacidade de simbolizar a chegada da nova “princesa do povo”, a jovem e bela plebeia que alcançou o mundo da realeza.

 

Kate,a mulher, não importa muito nesse caso. É o imaginário da figura da princesa que manda aqui.

 

A princesa, em geral, é discreta, doce, sabe receber, preserva o recato, é prendada (com Kate surgiu uma nova onda de procura por cursos de boas maneiras para moças de fino trato), exatamente como a dona-de-casa dos anos 50, símbolos paradoxais de elegância, obediência e repressão/depressão.

 

A mulher do próximo verão, segundo as semanas de moda, é assim, bonita e triste feito um passarinho na gaiola. De novo, não quer dizer que a moda quer criar "sozinha" essa imagem, mas que de alguma forma esse sentimento de repressão já está presente na sociedade. A moda, a partir dessas referências, criará imagens e escolherá seus ícones, aquelas pessoas que melhor representarão essa imagem levando em conta uma série de interesses. Não vamos esquecer que as empresas de moda estão hoje entre os capitais mais poderosos do mundo.

 

 

Então quer saber o que Kate Middleton tem a ver com crise econômica e os protestos em Wall Street? Quer uma leitura de como a coleção da Prada é uma tiração de sarro com os conceitos de clássico/herança/elegância? Então cole aqui amanhã e “vem com nóiz”.

 

 

Vamo estourá (as champagne tudo), rapa!!!

Besos

Vivian Whiteman

 

Looks de cima para baixo, da esq à dir.: Nina Ricci, McQueen (dois looks), Louis Vuitton (dois looks) e Jil Sander

 

Looks de cima para baixo, da esq à dir: Dolce & Gabbana, Dior, Prada, Gucci, Balenciaga e Hermès

Escrito por Vivian às 17h23

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Vivian Whiteman Vivian Whiteman é editora de Moda da Folha e também edita os especiais de moda da revista Serafina.

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