Vivian Whiteman

Última Moda

 

CAMP PRADA - TIA MIU TIRA UMA ONDA

Muito bem, meu bem.

 

Era uma vez a temporada do camp, em que  Prada e Marc Jacobs para a Vuitton trouxeram o tema à tona. Foi no ano passado, mas o caldo dessa sopa ainda está entornando por aí.

 

Chega no rejunte, vamos pensar um minutinho a diferença entre “camp” e “kitsch”, aplicada ao nosso caso de estudo.

 

Segundo Sontag e outros teóricos (recomendo a leitura de “Making Camp”, de Helene A. Shugart e Catherine Egley Waggoner), o kitsch teria como pré-requisito uma certa ignorância. Já o camp pressupõe um reconhecimento de certo código de valor. Um exemplo banal:

 

Kitsch: pessoa número 1 compra um pinguim de geladeira porque acha que esse é um enfeite agradável/simpático e adequado para uma geladeira

 

Camp: pessoa número 2 compra um pinguim de geladeira porque quer dar um ar kitsch à sua casa, ou seja, propõe uma certa imitação cômica, assimila ao mesmo tempo em que tira onda com o hábito de consumo da pessoa número 1 (e por consequência estabelece uma separação, quase sempre de classe)

 

E o quico? pergunta tia Miu, fingindo que não sabe.

 

Pensem, cabeçudinhos lindos, pensem.

 

O camp tem sempre a ver com o outro. Com esse outro que é alvo da piada simpático-perversinha.

 

  

Para Quentin, o leitor com pseudônimo de diretor:

Por que o clipe "Party" da Beyoncé é camp (Quentin, o leitor com pseudônimo, diz que o clipe é bling)?

 

Beyoncé e seus pares estão numa festa num trailer camp (a-ha), cenário mais conhecido da vida "white trash" americana. Ou seja, ela é a própria Beyoncé (acompanhada da irmã e da melhor amiga) vestida com peças de ultraluxo num cenário pobre estilizado.

 

 

Não um luxo contido, clássico ou minimalista, mas uma ideia de luxo baseada no que a elite acredita que as classes mais pobres entendem por sofisticação. Há sim, ligação com o bling que, no entanto, é a  visão da cultura de gueto, sobretudo da cultura gangsta, sobre o que seria um visual luxuoso, que ostentasse riqueza. Mas no clipe está presente o elemento irônico_ ou seja, o narrador, aquele que controla a história, se coloca numa posição distanciada em relação ao que se passa no clipe. A própria Beyoncé não faz parte do cenário, não interage naturalmente com o ambiente, ao contrário, olha o tempo todo para o espectador, como quem diz "eu também sei o que está rolando".

 

Estamos falando de um videoclipe de uma grande cantora, feito por um diretor que domina os códigos. O vídeo, portanto, é a visão do diretor e de sua cliente, que simula uma festa num local pobre, com roupas que assimilam o kitsch (ou cafona, como queiram) "natural" das classes pobres americanas usando roupas de alto luxo. E isso foi facilitado porque as próprias grifes de luxo fizeram esse movimento de olhar para uma identidade considerada de alguma forma inferior ou digna de riso e elevá-la ao nível de "chique" ou ao menos de "tendência", de forma IRÔNICA, TIRANDO ONDA.

 

(Antes que algum mala se pronuncie, eu adoro a Beyoncé. Favor aprender a fazer comentários pertinentes. Grata.)

 

 

De novo: mais do que um estilo em si, o camp É UMA QUESTÃO DE PONTO DE VISTA, DE PONTO DE OBSERVAÇÃO.

 

 

Voltando à Prada: uma das maiores grifes do mundo, uma das poucas grandes empresas que dão lucros na Itália em crise do momento. Quem é que compra Prada a ponto de gerar resultados tão polpudos? Os mercados orientais e emergentes, sabemos. As chiques da Europa não dariam conta de sustentar os níveis de negócios necessários para a manutenção e expansão da grife nos patamares atuais.

 

 

Partindo desse contexto, do the locomotion e desce a page comigo para rever os fantasmas das três últimas coleções da Prada.

Escrito por Vivian às 18h16

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CAMP PRADA - CONTINUAÇÃO

Pois bem, rewind.

 

Coleção Prada camp 1 – Coração Selvagem (verão 2011)

 

Miquinhas colorex com bananas vitaminadas

 

 

Buemba! Miuccia Prada, a gênia da lâmpada das fashionistas aparece com uma coleção cheia de macacos e bananas. Cabelinho Josephine Baker, vai vendo.

 

Josephine que, como a linda e inteligente Carmen Miranda (ela tava atenta, pena que não conseguiu virar o jogo, mas tava atenta a bonita), era tratada feito mico de circo exótico, cara de uma ideia capital-careta de “tropicalidade selvagem”.

 

Miuccia diz: olha que engraçado essas macaquinhas simpáticas, agora  têm dinheiro e também determinarão o que é elegância, pq titia Miu precisa vender. O que será que elas usam? Bananas, como diria Rachel Zoe.

 

A piada é com quem? Países “quentes” em ascensão, como o Brasil e a Índia.

 

  

 

 

Coleção Prada camp 2 –  Peixe grande e suas histórias (inverno 2011)

 

 

 

 

Aí chega o inverno e titia veste as moças de peixão dourado/avermelhado

 

 

Peixes ornamentais de aquário, vermelho-China, ursas com chapéu russo estilizado, lolitinhas à japonesa.

 

Um fato chama a atenção: todas agarram suas bolsinhas e as apertam contra o corpo. Eu, uma otimista, li na época como um simbolismo de tomar posse da feminilidade_ a bolsa, segundo vários teóricos, aparece muito ligada ao útero em referências culturais.

 

Pois bem, há mais caroço nesse angu.

 

Miuccia diz: a bolsa é tudo, gente. Quem contou foram os executivos, tendo em posse os números das vendas da grife, cujas bolsas são objeto de desejo (é público, notório e está nos reports de vendas que as chinesas e japonesas têm verdadeira compulsão por bolsas, mais do que as já compulsivas fashionistas de outros cantos).

 

 

A piada é com quem? Já está dito: China, Rússia e Japão, representando a ala oriental dos compradores

 

 

   

Coleção Prada camp 2 –  Lost Highway para a Cidade dos Sonhos (verão 2012)

 

 

 

Verão de novo, temporada que acabou agora no início de outubro.

 

Tia Miu volta aos cinquentinha em direção aos sessentuxos e sai cantando pneu nos Thunderbirds, aqueles carrões americanos.

 

Tsc, tsc.

 

As minas com shapes automotivos, o cabelinho lavado e encerado no capricho. Aquela pegada dos hot rods (carrões que ao longo das últimas décadas viraram objeto de fetiche, um clássico do kitsch endinheirado)

 

Miuccia diz. Esses EUA tão na pior, mas ainda há Hollywood, fábrica de sonhos de um passado de glórias, da memorabilia do “american way of life”, decadente em sua própria essência. Sentiu a vibe David Lynch?

 

A piada é com quem? Miami, paraíso das gastanças de uma certa classe média-alta  e do retrô americano 50/60.  E, é claro, LA, casa das estrelas de Hollywood, exportadora de desejos que estarão expostos nas vitrines de NY. Na verdade, aqui o alvo é a própria obsessão americana com seus períodos de “auge” e o fascínio que isso exerce em um mundo acostumado a ter os EUA como papai-patrão, mas que se vê diante de sua queda/morte simbólica

 

  

 

Pronto para tacar bananas na carona da Miuccita? Segura o tchan, fi, que amanhã vem a  última parte do texto, com considerações finais sobre essas interpretações. Não me venha com dia de indignação barata, bebê.

 

Alô, tia Miu, fica atenta que banana à milanesa nóiz tá ligado, viu?

 

Besos,

VW

 

Escrito por Vivian às 18h08

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Vivian Whiteman Vivian Whiteman é editora de Moda da Folha e também edita os especiais de moda da revista Serafina.

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